quinta-feira, 4 de junho de 2015

A NOVA GUERRA FRIA E A LUTA DE CLASSES


        A conjuntura internacional está determinada por uma disputa entre o imperialismo dos Estados Unidos/Europa e o bloco Rússia/China, que condiciona a política de toda a esquerda. Em geral, os “trotskistas”, disfarçando uma política marxista, levam água ao moinho de um ou outro desses blocos. Grupos como LBI, Liga Comunista (CLQI), Coletivo Lênin, seguindo o rastro dos estalinistas, apóiam politicamente o novo imperialismo Russo/chinês, como se fossem semi-colônias. Apóiam também politicamente os governos das semi-colônias que estão sendo desestabilizados pelo imperialismo. O traço característico das suas políticas é a proposta abstrata e capituladora de frente única.
        Outro setor da família “trotskista”, objetivamente alinha-se com os Estados Unidos/Europa através de políticas variadas. As suas características mais importantes são: batizar de pretensas revoluções as agressões imperialistas; maquiar a realidade para adaptá-la à sua política; colocar-se aparentemente contra os bombardeios da OTAN, mas apoiá-los na prática; abandonar o princípio leninista da defesa incondicional das nações oprimidas, sob pretexto de tratar-se de ditaduras sanguinárias; uma pretensa política de combate em duas frentes, tanto contra a OTAN como contra as ditaduras.
        Os bolcheviques propunham a defesa das semi-colônias agredidas pelo imperialismo, independentemente das suas direções, sejam ditaduras ou regimes democráticos burgueses. A vitória de uma nação oprimida debilita o domínio internacional do imperialismo, que é o inimigo principal dos povos. Não se pode igualar um ditador de uma semi-colônia, por mais sanguinário que seja, com os chefes do imperialismo. Trotsky apoiou a Abissínia contra a Itália, apesar do seu ditador sanguinário; a China contra o Japão, apensar de Chang Kai Chek. E resumiu assim a sua política: “em uma luta entre uma república civilizada, imperialista, democrática, e uma monarquia atrasada, bárbara, de um país colonial, os socialistas estão totalmente do lado do país oprimido, apesar da sua monarquia, e contra o país opressor, apesar da sua democracia” (Escritos).
        O primeiro bloco de “trotskistas” não esquece o princípio da defesa das nações oprimidas. No entanto, o faz embelezando e apoiando de fato os governos burgueses dessas nações. Sacrifica o princípio da independência de classe, caracterizando esses governos como nacionalistas, anti-imperialistas, ou seja, progressistas. Em geral, têm dado apoio eleitoral a partidos burgueses. E diante da agressão militar, têm proposto a Frente Única com eles, o que é uma abstração, porque nesses países não existe partido revolucionário e movimento independente do proletariado. Essa seria uma F.U. entre o governo nacional e o nada. E na hipótese de existência de tal partido, essas ditaduras não aceitariam qualquer frente única com o seu proletariado. As burguesias nacionais reacionárias atuais serão sempre derrotistas diante dos seus trabalhadores. A Frente Única proposta pelas Teses do Oriente em 1922 caducou como tática privilegiada. Foi ressuscitada, com um século de atraso, como cobertura para sua capitulação. Hoje, como então, não é a FU o método principal de defesa das nações oprimidas. O proletariado deve defendê-las com seus próprios métodos: manifestações, greves, boicotes, denúncias, agitação, e, se possível, de armas na mão.
        O segundo bloco de “trotskistas”, abandona completamente o método da defesa das nações oprimidas, embora se digam contra os bombardeios da OTAN. Toda a sua política é de apoio à intervenção imperialista, inclusive, pedindo armas para os “rebeldes”, ou seja, para os prepostos do imperialismo. Essa esquerda alega a existência de uma suposta revolução nesses países, concomitante com a intervenção externa, como forma de cobertura para a sua capitulação. Para uns (LIT, UIT, etc), seria uma revolução democrática. Os supostos agentes da “revolução democrática” têm sido organizações islâmicas ou fascistas (Ucrânia). Isso é uma maquiagem vergonhosa da realidade.
Existem também aqueles que defendem a luta em duas frentes: contra as ditaduras e os bombardeios da OTAN. Essa suposta terceira via, transforma-se numa variante da política pró-imperialista dos demais. Todo o centro da sua política está na pretensa “revolução” e não no combate ao imperialismo, que é colocado em pé de igualdade com as ditaduras de terceiro mundo. Trotsky combateu, na IV Internacional, as frações internas que defendiam esse tipo de combate em duas frentes. A luta política é realmente em duas frentes, contra a burguesia nacional e o imperialismo. A luta de classes não pára durante a defesa nacional. Em termos militares, o combate em duas frentes é uma capitulação. Os marxistas perfilam-se ao lado das nações oprimidas, como o fizeram na China contra o Japão, por exemplo.

A ASCENSÃO RUSSO/CHINESA E A NOVA GUERRA FRIA
        Após a restauração do capitalismo nos ex-Estados Operários burocratizados, o imperialismo americano/europeu tenta submeter a Rússia e a China. Nesses países, a restauração assumiu formas diferentes. Na Rússia, a restauração foi caótica. A economia estatal foi entregue à pilhagem das máfias, ligadas aos Estados Unidos e Europa. Abriu-se uma enorme crise social e econômica. A economia regrediu a nível impensável. A União Soviética foi desintegrada e extinto o Partido Comunista, que se dividiu em muitas frações. Com o tempo, a economia se estabilizou e voltou a crescer com base nos enormes recursos naturais do país e nos seus altos preços.
        Não tardou a fechar-se o cerco dos Estados Unidos, que descumpriu a sua promessa a Gorbatchev de não expandir as bases da OTAN às ex-repúblicas soviéticas. A camarilha entreguista de Yeltsin foi substituída pela de Vladimir Putin, que tentou uma convivência pacífica com o imperalismo, apostando no bloco comercial Rússia/Europa. Tolerou o estreitamento do cerco da OTAN sobre o seu quintal. Avalizou o bombardeio sobre a Líbia. Em 2008, Putin pela primeira vez tentou demarcar limites à expansão dos Estados Unidos, que se assanhavam sobre a Geórgia e a Chechênia, bombardeando essas repúblicas e mantendo-as sob a sua órbita.  Em 2014, o imperialismo promoveu mais uma das suas “revoluções coloridas”, promovendo uma “insurreição popular” e derrubando o governo da Ucrânia, sob a direção de grupos fascistas. A OTAN, após instalar-se na Polônia, repúblicas bálticas, etc, agora pretende por um pé na Ucrânia, às portas de Moscou. Putin retaliou anexando a Criméia e promovendo o separatismo no leste da Ucrânia. Em resposta, a Rússia acercou-se da China, com quem assinou vultosos acordos comerciais, e criou a União Comercial Euro-asiática.
A atitude da Rússia sobre as repúblicas não russas no seu interior e nas imediações é típica de um novo imperialismo nascente. Esse fato somente foi possível pelas características especiais da Rússia (um território gigantesco com abundantes recursos naturais, como gás e petróleo) e por ser herdeira da antiga União Soviética, dona do segundo maior poderio militar do planeta, uma alta tecnologia militar, uma indústria armamentista forte e exportadora. O velho aparato do Estado burocratizado foi desmembrado, mas não desfeito completamente. O imperialismo pôs a seu serviço apenas um setor deste e parte dos novos magnatas. A Rússia nunca sucumbiu integralmente à condição de semi-colônia. A fração Putin, sob pressão imperialista, foi obrigada a reagir e não apenas defender-se.
        A restauração na China deu-se de forma diversa, sob estrito controle do Partido Comunista, sob a liderança de Deng Xiau Ping. Desfez o monopólio sobre a economia, abriu o país ao capital estrangeiro. Manteve entretanto o controle político, bem como, as grandes empresas estatais. A ditadura burocrática sobre a gigantesca mão de obra chinesa criou as condições ideais para os investimentos internacionais. A China transformou-se na grande fábrica do mundo, com base em condições de trabalho semi-escravas, que o capital não poderia impor imediatamente nas metrópoles. A China beneficiava-se dos investimentos estrangeiros, acumulava capital e tecnologia e financiava na outra ponta a dívida pública americana, investindo em títulos do tesouro. Esse fato trazia incubado muitas contradições. Os investimentos na China eram o paraíso para o capital, mas tornavam as metrópoles ainda mais parasitárias e deficitárias.

        Armou-se uma bomba relógio, expressa pela decadência americana e a ascensão chinesa.  Os Estados Unidos promoveram o cerco político e militar à China. Rodearam-na de bases militares e instigaram contra ela Japão, Coréia do Sul e Vietnã. Tentam desestabilizá-la e desmembrá-la fomentando separatismos em algumas regiões (Iugures, Hong Kong, Tibete). Recentemente fracassaram na tentativa de criação de um acordo de livre comércio Ásia-pacífico, sem a China. Esta criou o seu banco de investimentos e atraiu a ele dezenas de países, inclusive, grande parte da Europa. A sua ofensiva contra a Rússia fortaleceu a aliança russo-chinesa. A China, na condição de grande exportadora de capitais, exerce uma influência imperialista ainda difusa.

domingo, 12 de abril de 2015

O PAPEL DAS GREVES E DA GREVE GERAL

                         
        As greves têm sido uma constante desde a formação do proletariado. As greves gerais surgiram no fim do século XIX. Já os cartistas ingleses, a I Internacional e os bakuninistas (anarquistas) falaram da greve geral. Em alguns países (Argentina, Grécia, etc.) as centrais sindicais têm convocado dezenas de “greves gerais”. As greves são um método de luta importantíssimo, mas não o único, nem o principal, e não são possíveis em qualquer conjuntura. A burocracia sindical tem vulgarizado esse método, transformando-o em caminho mais curto para derrotas. Está interessada exclusivamente na sua promoção. As burocracias em geral promovem greves fora dos momentos propícios. Invariavelmente a esquerda perfila-se junto com a CUT no apoio às greves patronais, haja vista, o apoio às greves da CNTE.

Métodos adequados aos seus objetivos

         As lutas salariais visam apenas valorizar a mercadoria força de trabalho. Não abalam o capitalismo. Os socialistas as apóiam apenas como ponto de apoio da luta pela abolição do trabalho assalariado. A burocracia e a esquerda restringem as greves aos seus objetivos meramente econômicos. O socialismo se formou na luta contra esse método, que se chamou economicismo.
        O método reformista aposta no crescimento gradativo das lutas salariais, que serviriam para acumular forças e conscientizar os trabalhadores. As greves não conscientizam os trabalhadores e nem sempre servem de acúmulo de forças. Apenas as greves vitoriosas acumulariam forças. O reformismo pretende conciliar os interesses entre as classes. Não entende as greves como luta de classes, ou seja, um confronto entre a burguesia e o proletariado em que este se prepara para expropriar a primeira. Mas a burguesia as trata como luta de classes, reprimindo-as e demitindo em massa. A deflagração de uma greve exige uma análise criteriosa da situação: como estão os seus inimigos (os patrões e o governo), o ânimo geral dos trabalhadores e da categoria em questão, o seu grau de organização, o fundo de greve, o caráter das direções, a reivindicação em pauta. Isso não importa para a burocracia sindical, que não tem responsabilidade com a categoria.
         As greves operárias têm maior poder de pressão porque paralisam a produção, principalmente, em se tratando de categorias nacionais (como petroleiros, caminhoneiros, etc.) ou mesmo categorias regionais, como metalúrgicos, construção civil, obras do PAC, etc. Existem categorias, como bancários, correios, que, mesmo sendo prestadores de serviços, são também categorias nacionais. As greves de professores têm, em si, menor poder de pressão, porque ao governo a educação não importa e pode jogar a população contra a greve. A força dos trabalhadores da educação pública reside no fato de serem categorias numerosas, e pelas suas mobilizações. Estas podem ter uma grande repercussão política, se acompanhadas de uma campanha de denúncia e em grandes atos públicos.  Essa é a razão das brutais repressões policiais contra passeatas pacíficas do magistério.     
        O capitalismo está dominado por monopólios parasitários. As lutas isoladas são via de regra derrotadas. É preciso unificar as categorias, organizá-las por local de trabalho, e promover uma campanha de denúncia do capitalismo, não de forma abstrata, como fazem os doutrinários e até mesmo os reformistas, nos dias de festa. Deve-se demonstrar, com base na experiência das massas, que todos os males cotidianos decorrem do caráter retrógrado do capitalismo.
        A consciência socialista não é uma decorrência natural do movimento. A conscientização dos trabalhadores é uma tarefa da vanguarda. O movimento socialista apóia-se em todas as lutas, não apenas sindicais. É preciso promover todas as demandas populares (sindicais, dos terceirizados, que não têm sindicatos, dos camponeses, das minorias oprimidas, das mulheres, negros, gays, etc.). O reformismo aposta no crescimento paulatino das lutas econômicas. O marxismo, ao contrário, para ele somente um movimento revolucionário pode arrancar do capitalismo uma que outra conquista. A burguesia pode ceder alguma reivindicação importante quando se vê na iminência de perder tudo. E se não for derrubada, inevitavelmente, retomará com a mão direita o dobro que deu com a esquerda. Vivemos uma época de ofensiva do capital. As conquistas parciais não são impossíveis, mas estão intimamente vinculadas à luta pelo socialismo.

A greve geral

        As greves gerais desempenharam um papel muito importante na história. Atualmente, as burocracias sindicais de diversos países têm recorrido com freqüência a “greves gerais”. A esquerda tem proposto greves gerais de forma artificial. Não analisa a conjuntura, se é ou não propícia. Ao agitar essa proposta, delega a sua convocação às burocracias sindicais. As burocracias têm realizado dois tipos de “greve gerais”: 1 - nos momentos revolucionários, para esvaziar o descontentamento popular. A Grécia tem sido palco de dezenas de greves desse tipo. 2 – em momentos não revolucionários para defender ou desestabilizar governos burgueses. A Argentina é o exemplo principal. Podemos incluir nessa categoria os dias nacionais de luta.
        Em países, como a Grécia, os trabalhadores aderem a essas greves como única forma de manifestar o seu desespero diante dos planos de austeridade. Entretanto, à burocracia interessa apenas esvaziar a panela de pressão popular, e não colocar a burguesia contra a parede. São greves demonstrativas de um ou dois dias. Somente greves por tempo indeterminado, que paralisem o poder e ameacem tomá-lo, poderiam arrancar reivindicações importantes. No caso da Argentina, as burocracias sindicais (as três CGTs e a CTA) têm promovido “greves gerais” para desestabilizar o governo de Cristina Kirchner, a serviço da direita golpista. A reivindicação da greve recente (contra o imposto sobre o capital e sobre os altos salários), parcialmente justa, serviu apenas de cortina de fumaça para os interesses da direita e do imperialismo.
        Os dias de luta convocados pela CUT brasileira, (inclusive, Intersindical e CSP  Conlutas), têm tido o objetivo de apoiar ou disputar o governo. São atos de vanguarda e greves artificiais com uma pauta ambígua. Inclui aparentemente reivindicações dos trabalhadores, tais como, a luta contra o desemprego, mas os seus eixos principais são próprios de um programa burguês desenvolvimentista: contra o superávit primário, por uma nova política econômica. Supõe que o governo esteja em disputa. Mesmo a bandeira contra o desemprego, transforma-se em farsa quando se traduz por reivindicações de desoneração fiscal das indústrias, empréstimos oficiais, etc.
        Os grupos reformistas (PSTU, PSOL) e outros grupos “radicais” (doutrinários de esquerda), ao propor greves gerais, estão apoiando esse tipo de greve. Dada a correlação de forças, não é possível disputar com a CUT a direção dessas “greves”. O doutrinarismo de esquerda propõe greve geral para qualquer conjuntura. Obviamente, está delegando essa tarefa à CUT.
        Rosa Luxemburgo e Trotsky estudaram as principais greves gerais da história (Rússia, França e Inglaterra) e nos deixaram algumas lições. As greves gerais somente são possíveis em momentos revolucionários. São manifestações por excelência da luta de classes. Não são as greves gerais que levam à revolução socialista, mas a situação revolucionária é que torna possível a greve geral. Nem toda revolução deve passar por uma greve geral. Nas greves de categorias, os sindicatos assumem o papel principal. Nas greves gerais, o principal ator é o partido revolucionário, coisa que não existe hoje em nenhum lugar. A greve geral não pode ser convocada arbitrariamente, nem se pode criar as condições para ela mediante a propaganda. Propagandear a necessidade da greve geral é tão inócuo como a da revolução. Nem mesmo o maior partido proletário, nem a maior central sindical, podem realizar uma greve geral ao seu arbítrio. A greve geral é um fenômeno histórico, fruto de uma conjunção de inúmeros fatores. Fatores objetivos: econômicos, políticos, sociais, materiais; e subjetivos: o partido, os sindicatos, as organizações de base, a psicologia das massas.
        Numa conjuntura não revolucionária, o eixo da nossa política se desloca da ofensiva para a defensiva; de questões como a organização da insurreição, da greve geral, para os métodos e tarefas que os preparam: a construção do partido revolucionário, a organização de base, a autodefesa, a unificação das lutas, a propaganda do socialismo, a denúncia da burocracia, do centrismo e do governo. As propostas abstratas de greve geral são perniciosas, da mesma forma que qualquer política deslocada da realidade.



INDEPENDÊNCIA DE CLASSE CONTRA O GOVERNO E A DIREITA


        Os trabalhadores brasileiros não contam com qualquer organização política que represente os seus interesses de classe. Encontram-se politicamente espremidos entre o bloco do governo Dilma (PT, PMDB, PP, CUT, MST, UNE e afins) e o outro bloco da direita (PSDB, DEM, e o fascismo). A esquerda dita marxista (PSOL, PSTU, entre outros) e a esquerda periférica do governo (MTST, intelectuais, etc.) em nada contribuem para a independência de classe. Os dois grandes setores burgueses têm em comum a defesa dos planos de ajuste (MPs 664, 665, que retiram direitos dos desempregados e das viúvas, PL 4330, que terceiriza os serviços) e de todos os pacotes de maldades contra o povo: tarifaço, privatizações, cortes dos direitos trabalhistas, previdenciários, nos salários dos aposentados, na saúde, educação, e contra a Petrobrás.
        Esse programa comum entre governo e oposição não impede que o PSDB, aliado ao fascismo, lidere uma virulenta campanha contra o primeiro. Percebe a possibilidade de chegar ao poder em 2018 (que lhe escapou entre os dedos em 2014) ou mesmo antes, através de impeachment. Parece que a sua estratégia é desgastar o governo até as eleições de 2018, embora as circunstâncias possam abreviar esses prazos, favorecendo o impeachment e até um improvável golpe. A ofensiva dessa direita tem dois pólos: de um lado a Operação Lava Jato e seus vazamentos seletivos, amplificados pela imprensa, exclusivamente, contra o PT; de outro, uma campanha nas redes sociais, visando a desmoralização do PT, orquestrada pela direita, envolvendo ONGs patrocinadas pelo imperialismo, a exemplo das conhecidas “revoluções coloridas”. O fato de o PT liderar o governo, o torna aos olhos das massas o principal responsável pela corrupção, do que se aproveita essa direita, que não está interessada na moralização do Estado, já que é tão corrupta quanto ele.
        Encurralado, o PT optou por assumir integralmente o programa de ajuste do grande capital, como estratégia para “combater” o golpe, ou seja, torná-lo desnecessário. Desmoraliza-se ainda mais diante das massas e afasta alguns dos seus aliados. Essa política é sedutora para a oposição. Ao aplicar os planos de ajuste da direita, o governo presta-lhe um grande serviço assumindo para si o trabalho sujo que seria o seu. Entregaria-lhe o governo devidamente “saneado” em 2018. Entretanto, existe também outro lado. As lutas podem passar por cima da retranca do governo e dos pelegos da CUT, CTB, etc., tornando inócua a tentativa do PT de segurar os movimentos sociais, sua especialidade. Nesse caso, as lutas somente poderiam ser contidas pela repressão, que é uma vocação da direita. Essa seria a conjuntura mais propícia para o impeachment.

As manifestações, os planos de arrocho e o impeachment

        Essa campanha sistemática da direita desembocou em grandes mobilizações de massa, pela primeira vez após décadas, levando para a rua em maior número a média burguesia e profissionais liberais, mas também uma expressiva minoria da pequena burguesia e assalariados. A média burguesia, embora também atingida pela crise, foi para a rua movida pelo ódio ao PT e tudo o que ele para ela representa simbolicamente e que potencialmente poderia levar ao comunismo, principalmente, os programas sociais. Alimenta um medo doentio, instigada pela grande burguesia, a esse fantasioso comunismo representado pelo PT. Mobiliza-se preventivamente. O seu combate à corrupção é uma farsa restrita ao PT. É como se este cometesse a heresia de querer participar do banquete reservado da corrupção burguesa. Esse setor social não tem programa, serve apenas de marionete da grande burguesia, que está por trás dele.  É atingido pela política do capital monopolista, mas se submete a ele supondo ser a grande burguesia a guardiã da sua sobrevivência enquanto classe. É vítima da crise capitalista, mas volta-se contra os trabalhadores. Não é capaz de opor a mínima resistência à entrega da economia nacional ao imperialismo.
        Os pequenos burgueses e assalariados presentes nas manifestações, foram movidos por interesses legítimos: os ajustes, tarifaços, cortes sociais, inflação. Entretanto, também não apresentaram as suas reivindicações próprias, apenas engrossaram o coro da burguesia e assumiram o seu conteúdo. Esses atos foram dominados integralmente pelas bandeiras da direita e do fascismo. Nenhuma reivindicação progressista foi levantada. Não foram mobilizações legítimas dirigidas pela reação, como caracteriza parte da esquerda, atribuindo-lhes algum caráter progressista. Não. Tratou-se de mobilizações reacionárias.
        Os atos convocados pelo governismo (CUT, MST, UNE, etc.) se caracterizaram por serem de apoio ao governo, mesmo que alegassem defender os direitos trabalhistas, a Petrobrás e combater a corrupção. Não se pode combater os “ajustes” liberais defendendo o governo que os patrocina. Não se pode combater a corrupção e defender a Petrobrás, eximindo o governo de responsabilidade em relação a elas. Somente os trabalhadores têm interesses no combate à corrupção e devem denunciar a corrupção do conjunto da burguesia, quer seja do PT ou PSDB. A CUT, se não fosse governista, teria condições de realizar uma investigação independente, retirando da burguesia essa bandeira. Prefere lavar a cara do PT. Quando a CUT fala “nenhum direito a menos”, não se deve entender que esteja contra os planos de ajuste. Não moverá um dedo contra eles. Aposta na negociação com o congresso, apenas para “dourar a pílula” desses planos. Essa central pelega é irrecuperável. Por isso, o PSTU vende ilusão quando exige que a CUT e o MST rompam com o governo.
          Algumas organizações de esquerda, como o PCO, entre outros, chamaram a participação nesses atos governistas em nome da unidade contra o golpe. Não se combate o golpe defendendo o governo, porque a sua defesa reforça a bandeira da direita de campeã da moralidade pública. Somente com uma denúncia contundente do governo, da sua corrupção, dos seus pacotes de ajuste, podemos disputar à direita a consciência das massas. Essa é a única política coerente contra um possível golpe ou impeachment. A luta contra este não é uma declaração vazia de intenções, mas uma disputa política contra a direita pela influência sobre as massas. Não se faz isso apoiando o governo.
 A Frente Única é uma ação prática de massas em torno de um objetivo preciso. Os atos convocados pela CUT não são contra um possível golpe de direita, são de apoio ao governo. Apoiar o governo não se confunde com a luta contra o golpe. O governo procura evitar o impeachment implementando os planos do capital, e a CUT está alinhada com essa política, mesmo que disfarçadamente.  A frente com a CUT neste momento significa apoio ao governo e aos seus pacotes. Essa Frente Única somente se justificaria no caso em que a mesma estivesse efetivamente levando uma luta progressista e não de aparência. Não é o caso da pretensa luta contra o golpe. A CUT é um braço inseparável do PT. A nossa política em relação a ela deve ser de denúncia implacável do seu caráter burguês, ao invés de participar dos seus atos governistas ou exigir que rompa com o governo.
        Também não se pode combater a corrupção através de investigações do congresso em unidade com os partidos de direita, como faz o PSOL. Esses partidos abstratamente podem comprometer-se em investigar todos os envolvidos na corrupção da Petrobrás. Na prática, isso somente valerá para o PT. Não se pode dar esse crédito de confiança a eles, sabidamente demagogos e corruptos. Nenhuma ilusão nos partidos patronais. Devemos denunciá-los sumariamente, baseados na sua história, ao invés de fazer frente parlamentar com eles.
        Entendemos que o impeachment ou o golpe é uma possibilidade que não está colocada para o momento imediato. Mesmo assim, nos colocamos contra o movimento golpista e desestabilizador do governo, promovido pelo PSDB e o fascismo. O impeachment, para nós, também é uma forma de golpe e não apenas uma alternativa constitucional, como diz o PSTU, para quem seria trocar seis por meia dúzia. Não. Seria um golpe porque é um casuísmo contra o PT. E seria também um golpe porque se voltaria principalmente contra os trabalhadores e suas organizações. É o movimento dos trabalhadores que a direita odeia e quer destruir. Para ela, nós somos o inimigo e não o PT. O seu ódio ao PT é apenas uma manifestação distorcida da sua ojeriza ao movimento independente do proletariado.




  

quinta-feira, 12 de março de 2015

COMBATER O ‘AJUSTE’ DE DILMA E DA DIREITA

 Está em curso um ataque aos trabalhadores: aos direitos trabalhistas, previdenciários, à saúde, educação, um tarifaço, privatizações, principalmente, contra a Petrobrás. É um ataque conjunto do governo e da oposição burguesa, a mando do imperialismo. A campanha da oposição de direita pelo impeachment é uma forma de encurralar o governo, para que ele mesmo implemente esses planos de arrocho, como, efetivamente, está fazendo. É também uma forma de servir aos interesses dos Estados Unidos, que disputa espaço aos BRICs, do qual o Brasil faz parte. Dilma criticou o liberalismo de Aécio e, uma vez eleita, nomeou um ministério liberal, que bem poderia ser o seu. O golpe (seja impeachment ou golpe militar) é uma possibilidade, a depender de um maior desgaste do governo. A campanha da direita está galvanizando a classe média e parte dos trabalhadores. O governo facilita a tarefa do golpismo ao implementar o seu programa, pretendendo tornar o golpe desnecessário. Isso é perigoso. Neste momento, desenha-se um acordão em torno da Operação Lava Jato. Entretanto, o aprofundamento do desgaste pode tornar viável o impeachment.
        O golpismo convoca os atos do dia 15.03 e desencadeia uma ampla campanha de desmoralização do governo. O governismo (CUT, CTB, UNE, MST, etc.) sai também à rua, em defesa de Dilma, convocando os atos do dia 13.03 com uma pauta contraditória: - reforma política; - assembléia constituinte; - nenhum direito a menos; - contra a corrupção; - contra a política recessiva. Como é possível reivindicar “nenhum direito a menos” sem combater o governo, que está retirando direitos no atacado? Como é possível combater a política recessiva com o banqueiro Joaquim Levy no Ministério da Fazenda? Ou pedir uma reforma política democrática, quando o governo está apoiando a contrarreforma política da direita? Isso é demagogia barata de pelegos governistas que procuram encobrir seu apoio ao programa da burguesia contra o povo. Parte da esquerda chama a participação nesses atos da burocracia, em nome de uma suposta unidade contra o golpe. Não se pode combater o golpismo apoiando o governo.
        A Conlutas lidera outra frente que chama os atos do dia 12.03, na perspectiva da criação de uma alternativa aos dois blocos burgueses, entendendo que o governo não está em disputa, com o que concordamos. Entendemos que os trabalhadores devem levar uma luta defensiva, tendo como eixo o combate aos planos de arrocho (MPs 664 e 665); contra os aumentos de tarifas; contra a privatização da Petrobrás e contra o movimento pró-impeachment. O impeachment significaria uma maior ofensiva contra os trabalhadores, não porque Dilma seja melhor que Temer ou Aécio. Combatemos o movimento pró-impeachment do ponto de vista da independência de classe, sem qualquer apoio ao governo.
        Essa luta, para ser consequente, requer a denúncia implacável da CUT, CTB, MST, UNE, como coniventes com esses ataques e a corrupção. A sua denúncia da corrupção é uma farsa, na medida em que levam livre o governo e não fazem uma investigação independente, como teriam condições de fazer. Não cabem exigências à CUT e ao MST para que rompam com o governo. Isso é uma versão indireta da tese do governo em disputa. No caso, a CUT em disputa. Também não é correto levantar a bandeira de uma reforma política, porque essa é a palavra de ordem com a qual o governismo tenta encobrir as suas traições e não existem as mínimas condições para uma reforma democrática. Devemos, sim, desmascarar a contrarreforma política em andamento.
        Essa luta de resistência deve opor-se aos ataques da burguesia, denunciar o peleguismo atual, visando à criação de sindicatos independentes e de um partido revolucionário. Somente assim o proletariado poderá colocar na ordem do dia os seus objetivos maiores: a estatização integral da Petrobrás, que deve coincidir com a expropriação do grande capital e a inauguração do socialismo. 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

COMBATER O ARROCHO E A DESTRUIÇÃO DA PETROBRÁS

                               
        Está em curso uma ofensiva imperialista contra o Brasil e os trabalhadores: um ataque aos direitos trabalhistas, previdenciários, aos programas sociais, tarifaço, privatizações, inviabilização e privatização da Petrobrás, implementada pelo Governo Dilma e apoiada pela oposição burguesa (PSDB e afins). A campanha política pelo impeachment de Dilma e a Operação Lava Jato fazem parte desse processo de pressão sobre o governo para que cumpra ele próprio o programa do imperialismo. O impeachment seria apenas a “cereja do bolo” para a oposição, a depender de novas denúncias e circunstâncias. Seria um golpe branco parlamentar, porque feito por um congresso corrupto valendo-se de pretextos, uma vez que o seu verdadeiro objetivo é levar a cabo a política do imperialismo. Essa chantagem está sendo bem sucedida.
Na campanha eleitoral, Dilma criticou o liberalismo de Aécio. Uma vez eleita, nomeou um ministério econômico que bem poderia ser o seu: um banqueiro do Bradesco, o chefe da Confederação Nacional da Indústria e a representante maior do latifúndio. Nem bem tomou posse, essa equipe mostrou a que veio, editando o seu “pacote de maldades”: retirada de direitos sociais, tarifaço, política de juros altos para os bancos. Existe uma unidade entre governo e oposição de direita com relação a esses planos. Os trabalhadores, ao os combaterem, combatem ao mesmo tempo as duas alas da burguesia, governo e oposição. É um crime o apoio de parte da esquerda ao governo e a conivência da outra parte com a campanha da oposição de direita.
Repudiamos o possível golpe parlamentar, o que não significa apoio ao governo. É uma autodefesa dos trabalhadores porque é contra eles que se voltará, em primeiro lugar. O imperialismo está satisfeito com Dilma. Preferiria um governo dos seus representantes mais diretos, para se livrar melhor dos BRICs e da Petrobrás, o que não significa que tenha já decidido substituí-la. Quer revogar o atual regime de partilha na exploração de petróleo, principalmente para o pré-sal, onde a Petrobrás administra os respectivos consórcios, para voltar ao regime de concessão e também impedir que o Brasil se torne auto-suficiente em refino de petróleo, sabotando a construção de novas refinarias. Atualmente, o país exporta petróleo bruto a preço de banana e importa derivados a preço de ouro.
        Paralelamente, a Operação Lava Jato (que bem se poderia chamar de Operação Joga Lama no PT) encurrala o governo através da divulgação seletiva pela grande imprensa (também conhecida como PIG) de denúncias contra figuras do PT e aliados do PMDB e PP, mesmo que o processo corra em segredo de justiça. Vêm à tona apenas denúncias contra o governo, com a conivência do juiz Sérgio Moro (amigo do tucano Beto Richa) e de delegados e promotores a serviço da oposição de direita, quando se sabe que todos os principais partidos (incluído o PSDB) estão envolvidos desde sempre na corrupção contra a Petrobrás e na corrupção em geral. Descaradamente, a Rede Globo instruiu os seus chefes a não divulgarem denúncias contra FHC. Ao mesmo tempo, a imprensa “moralista” nacional silencia criminosamente sobre o grande escândalo internacional representado pelas contas secretas no HSBC da Suíça.  A corrupção é uma instituição inerente ao sistema capitalista. A pior mentira é a meia verdade, porque dá ares de credibilidade a quem a faz. As verdades contra o PT dão credibilidade à arqui-corrupta oposição de direita. Não absolvemos o PT das suas falcatruas, inclusive, no atual escândalo da Petrobrás. Na festa dos 35 anos do partido, o próprio Lula definiu com perfeição o PT de hoje: “O PT transformou-se num partido igual aos outros, mas não pior”. Somente os trabalhadores têm interesses na verdade integral. A burguesia nos brinda com um festival de cinismo, cada quadrilha acusando a outra de corrupta.
         A Operação Lava Jato nada tem a ver com o combate à corrupção, mas, encurralando o governo Dilma, pretende destruir e privatizar a Petrobrás para beneficiar as multinacionais do petróleo e as empreiteiras estrangeiras. Esse objetivo está sendo alcançado: as obras das refinarias, estaleiros e petroquímicas estão paralisadas e os operários sendo demitidos às centenas de milhares, provocando o aprofundamento da recessão. Não por acaso, a Operação Lava Jato colocou na cadeia os responsáveis pelas empreiteiras, (os mesmos que financiaram as campanhas eleitorais da maioria dos deputados, senadores e presidenciáveis) e impede os “contratos de leniência”, que permitiriam que continuassem operando. As portas estão sendo abertas para as empreiteiras imperialistas. Dilma não se opõe a esse ataque, mas ajuda a promovê-lo. Agradando à direita e ao amo imperialista, pensa arrefecer a pressão contra o seu governo. Engana-se. O reconhecimento não faz parte das virtudes da burguesia. Dilma, ao dar mostras de fraqueza, torna a oposição ainda mais assanhada e, ao decepcionar os trabalhadores, fica politicamente “pendurada no pincel”. O seu governo não se defende dos ataques. Não mobiliza as suas bases, muito menos os trabalhadores, em sua defesa. A sua serventia para o imperialismo consiste em conter as mobilizações populares, não em promovê-las. O governo aposta em estancar as denúncias e as delações premiadas, envolver também as principais figuras do PSDB e, assim, numa posição mais confortável, propor um acórdão de bastidores aos seus adversários sobre os limites das denúncias recíprocas, que não beneficiariam ninguém.

Propostas para os trabalhadores
        A burguesia está na ofensiva. Os trabalhadores não contam com qualquer direção que represente a sua independência de classe. Nessa situação, o centro da sua luta deve concentrar-se na resistência e denúncia dos ataques em curso: o tarifaço e o ajuste fiscal constante das MPs 664 e 665 promovido pelo governo com apoio dos seus desafetos da oposição. As centrais sindicais, e a CUT em particular, tentam uma negociação no parlamento no sentido de maquiar esses planos, sem mexer no essencial. Devem ser denunciadas como coniventes com esses ataques. É preciso botar o bloco na rua, sempre que possível. Repudiamos a campanha pelo impeachment do ponto de vista da independência de classe, sem apoiar o governo. Não deixamos a critica ao governo na mão da direita. Muito menos devemos favorecer a oposição burguesa com a proposta abstrata de substituir Dilma por um governo dos trabalhadores, como faz o PSTU, porque somente a direita está em condições de depô-la. A esquerda se divide entre os que apóiam o governo e os que levam água ao moinho do bloco burguês pró-impeachment. O impeachment, improvável neste momento, mais do que a deposição de Dilma, se voltaria principalmente contra os trabalhadores.
        Os trabalhadores devem denunciar a corrupção das duas alas da burguesia, governo e oposição, dando nome aos bois e publicidade a todos os envolvidos, na medida em que sejam de conhecimento público. Uma investigação própria e independente, por mais necessária que seja, não tem viabilidade porque as suas direções estão integralmente comprometidas com a falcatrua de um ou de outro lado. Devemos denunciá-las sem piedade, como agentes e cúmplices da burguesia, ao invés de fazer-lhes exigências como costuma fazer parte da esquerda, principalmente, o PSTU, que chama a CUT e o MST a romperem com o governo, semeando ilusões na burocracia.
        Essa luta dos trabalhadores, de resistência, conscientização e organização, deve ser preparatória, visando a derrota do peleguismo atual e a criação de um partido revolucionário.  Somente assim o proletariado poderá colocar na ordem dia os seus objetivos maiores: a re-estatização integral da Petrobrás, que deve coincidir com a expropriação do grande capital e das multinacionais e a inauguração do socialismo. A bandeira de “uma Petrobrás 100% estatal” não pode ser desvinculada da luta pelo socialismo, como faz a esquerda, sob pena de cairmos na ilusão reformista.  
                                                    

       

       
       

       
       



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

CHARLIE HEBDO: UMA PROVOCAÇÃO IMPERIALISTA

        Rapidamente a policia francesa identificou, perseguiu e assassinou os irmãos Said e Chérif Kouachi, tidos como autores do atentado contra a revista Charlie Hebdo. Teria encontrado estranhamente uma carteira de identidade deles num veículo.  Os irmãos eram velhos conhecidos dos serviços secretos franceses, que provavelmente os tenha recrutado para servir à guerra colonialista da França na Líbia e Síria. A mulher de um deles conseguiu furar o bloqueio da segurança e logo apareceu na fronteira da Turquia com a Síria. Um dos implicados no massacre já teria sido recebido em audiência por Sarkozy. Esses e outros fatos são muito estranhos.
        Publicações e personagens vinculadas ao próprio imperialismo (Paul Craig Roberts, ex-secretário do tesouro americano, Julian Assange e outros) afirmam tratar-se de um atentado de “bandeira falsa”, uma provocação do próprio imperialismo. Atentados de “bandeira falsa” têm sido uma constante nos últimos anos para acusar os seus inimigos: o abate do avião de passageiros pelo governo ucraniano, para implicar a Rússia; o massacre por armas químicas na Síria pelos “rebeldes” pró-Estados Unidos, para acusar Assad. Historicamente sabemos que quase todas as guerras são provocadas por atentados de “bandeira falsa”.
        A versão apresentada pelo governo francês não merece credibilidade. No momento em que foram assassinados, os irmãos Kouachi estavam cercados e não possuíam reféns. Porque não foram capturados vivos? A forma da sua morte caracteriza uma típica queima de arquivo. O que poderiam contar? Que provavelmente agiram a mando do Mossad e da Cia? Ou poderiam negar o assassinato? Nesse caso, ficaria evidente a participação dos serviços secretos. Essa hipótese seria reforçada pelo depoimento do policial muçulmano assassinado antes de morrer ao seu irmão de que não se tratavam de muçulmanos.
        A AL-Qaeda do Iêmen assumiu a autoria do atentado, coisa que não contraria as hipóteses anteriores. As autoridades e a imprensa afirmam que o atentado foi obra de “terroristas islâmicos” para vingar a honra do islã e de Maomé, ultrajadas pelas charges da revista. Nem a autoria da AL-Qaeda nem a hipótese de ato isolado de muçulmanos  anulariam a responsabilidade do imperialismo, como legítimo pai de toda a barbárie terrorista, e que continua a seu serviço. E porque direta ou indiretamente teriam deixado o massacre acontecer já que conheciam todos os passos dos irmãos Kouachi.
        Os cartunistas pagaram o preço da provocação imperialista contra os muçulmanos. As evidências do massacre trazem o DNA dos serviços secretos ocidentais. Existe quem alegue que o atentado teve o objetivo de enquadrar ainda mais a França às ordens dos Estados Unidos, já que havia declarado apoio ao Estado Palestino e reclamava das sanções à Rússia.

O significado do massacre
        O atentado à Charlie Hebdo somente beneficia o imperialismo, e particularmente o fascismo europeu, favorece a sua ofensiva contra os povos, tendo como “bode expiatório” o terrorismo “islâmico”. O colapso da União Soviética eliminou o espantalho do comunismo a justificar a sua política belicista de interesse da indústria armamentista, pilar da economia capitalista. Foi necessário criar um novo inimigo imaginário, aquilo que foi batizado como o inimigo “islâmico”. Para justificá-lo criou-se a teoria do choque de civilizações: de um lado a civilização ocidental, cristã e democrática e, de outro, a civilização islâmica, fundamentalista e bárbara. Isso é uma farsa em todos os sentidos. Não por acaso, a civilização muçulmana está assentada sobre as maiores jazidas de petróleo e gás do planeta.
        Originalmente, a civilização islâmica foi muito mais tolerante que a civilização cristã. Foram os primeiros a abolir a escravatura, mil anos antes que o ocidente. Viveram em harmonia com as outras religiões (cristãos e judeus) na península ibérica, que dominaram por oitocentos anos, e no próprio oriente médio. Até recentemente dominava no mundo árabe o pan-arabismo laico de Nasser. A OLP é laica, assim como o foram as ditaduras do Sha do Irã, de Sadan Hussein no Iraque, de Kadafi na Líbia e como o é a de Baschar al Assad, na Síria. O fundamentalismo islâmico se restringia à Arábia Saudita, que patrocinava a seita salafista wahabi. O crescimento do fundamentalismo é fenômeno recente, junto com seu apêndice terrorista: AL-Qaeda, Estado Islâmico, al Nusra, etc.
        Na metade do século XX, os Estados Unidos haviam favorecido a criação da fundamentalista Irmandade Muçulmana, no Egito (que se espalhou para outros países), para combater o nacionalismo nasserista. Na década de 70, criou e armou o Taliban e a AL-Qaeda, para se opor à União Soviética no Afeganistão. A partir daí, os petrodólares da Arábia Saudita, aliada dos Estados Unidos, são postos a serviço da expansão desse fundamentalismo e da criação de verdadeiros exércitos mercenários para intervenção em qualquer país que contrarie os interesses do império. Assim foi feito na Chechênia, Iraque, Líbia, Síria, Nigéria (Boko Haran), Ucrânia. Todos os países invadidos por razões “humanitárias” viraram terra arrasada, campos de concentração e cemitério de milhões de pessoas (Afeganistão, Líbia, Iraque), entregues à sanha desses grupos terroristas, que dizem combater.
        Após 11 de setembro/2001, os Estados Unidos e seus aliados vassalos anunciaram a guerra ao “terrorismo mundial”. Invadiram o Afeganistão, Iraque, Líbia e acossam a Síria. Apesar de terem deposto o Taliban, matado Bin Laden e recentemente alegarem combater o Estado Islâmico, o terrorismo e o imperialismo não estão em lados opostos. O ocidente imperial necessita do terrorismo tanto como amigo quanto como inimigo. Como amigo, o usa contra a Rússia, Líbia, Iraque e Síria. Como inimigo, serve para justificar guerras de interesse da indústria da morte. É um jogo duplo, cínico e macabro. Os Estados Unidos lideram uma ampla coalizão contra o Estado Islâmico e este, milagrosamente, continua a avançar. Existem diversas denúncias de que os Estados Unidos continuam ajudando o EI, a mais recente feita pelo parlamento iraquiano. Além da Arábia Saudita e Catar, tradicionais financiadores do terrorismo, Turquia e Israel também lhe dão cobertura.
        Os atentados terroristas promovidos por esses grupos mercenários, não se explicam apenas pelo ódio de indivíduos tresloucados, indignados pela barbárie cometida contra os povos muçulmanos, como a imprensa divulga. Esses grupos são dirigidos por mercenários a serviço do imperialismo e os seus atentados terroristas são decididos nos altos escalões dos serviços secretos ocidentais (CIA, M16, Mossad, etc.). Têm um objetivo friamente calculado: justificar guerras, alimentar o ódio aos imigrantes, favorecer a direita fascista européia e alimentar a suposta “guerra de civilizações”, insinuando que a barbárie é uma característica de todo o islã. O inverso não é verdadeiro. Jamais se atribui ao cristianismo o terrorismo fascista europeu, tal como o assassinato de 77 pessoas pelo norueguês Breivik.
        Não é mero acaso os atentados serem revestidos de requintes cruéis, como as decapitações promovidas pelo Estado islâmico. Pretendem propositalmente propagar o medo e a revolta contra a civilização islâmica em geral. Não é o islã o responsável por essa barbárie, mas os seus inimigos internos travestidos de seguidores de Maomé, que em público ajoelham-se em direção a Meca e em privado acendem velas para o diabo.

Quem é Charlie Hebdo?
        As charges da Charlie Hebdo nada tem a ver com o massacre, a não ser como pretexto. Mas existem os que consideram as ofensas ao islã a razão do atentado, mesmo que injustificada. Abre-se uma discussão sobre a liberdade de imprensa, os limites da sátira e o respeito às religiões. Somos de opinião de que não existe liberdade de expressão no abstrato. No capitalismo, os meios de comunicação estão na mão de monopólios privados, agentes da mentira e da lavagem cerebral dos povos. Liberdade de imprensa é sinônimo de manipulação do povo. Lutamos pela ampliação das liberdades para os trabalhadores, porque, em geral, a burguesia já tem a sua liberdade garantida. A liberdade de expressão faz parte da luta de classes e com esse critério devemos julgar as suas charges.
        Existem aqueles que consideram a Charlie Hebdo uma revista de esquerda, irreverente, contestadora das religiões em geral, inimiga do capitalismo e do fascismo. Para nós, ao contrário, está a serviço do colonialismo francês. Reconhecemos as suas opiniões laicas, antifascistas e anticapitalistas, mas o seu verdadeiro papel é determinado pelo conjunto da sua obra. Não defendemos a censura prévia, mas temos o direito de criticar aqueles que sustentam o imperialismo por traz de uma fachada liberal e anti-religiosa. É consenso que a ênfase maior da revista é a ridicularização do islamismo e de seu profeta Maomé. Essa crítica feita na França onde os descendentes de imigrantes árabes são uma minoria oprimida, alvo do ódio da Frente Nacional, reforça esse fascismo.
        Os cartunistas deviam saber que a sua sátira levava água ao moinho da direita anti-imigrante. Não por acaso, toda a burguesia imperialista uniu-se sob o lema: nós somos Charlie, e pela liberdade ilimitada de crítica. A mesma liberdade que negam à crítica ao sionismo. É uma ironia cruel ver abraçados os maiores verdugos da liberdade em nome da defesa dessa mesma liberdade, que é negada aos imigrantes árabes na França com a proibição do uso do véu para as mulheres (proibir o véu é tão autoritário como obrigar o seu uso), proibição da reza em público dos muçulmanos (ninguém proibiu as procissões católicas) e dos atos em defesa dos palestinos, massacrados pelo assassino Netanyahu. Os milhões de franceses que se manifestaram em nome do “somos todos Charlie”, não se lembraram dos povos árabes e africanos, invadidos pela França (Líbia, Mali, Iraque, República Centro Africana) e não derramaram uma lágrima pelos milhares de muçulmanos mortos pelas valentes armas francesas.
        O marxismo entende que o inimigo principal está em casa. Para os trabalhadores e a verdadeira esquerda francesa, o inimigo principal é o colonialismo francês, e não os imigrantes muçulmanos e muito menos a religião islâmica. Argumenta-se que seria um direito democrático a sátira às religiões em geral e ao islamismo em particular.  Charlie Hebdo não critica o terrorismo travestido de islâmico, mas a religião islâmica e o profeta Maomé. Vincula subliminarmente o islamismo ao terrorismo. Não é uma crítica séria à religião, mas uma posição política conveniente à xenofobia antimuçulmana. Esculachar Maomé em nada questiona os defeitos do islamismo, é apenas uma provocação ao povo muçulmano.
        A crença no sobrenatural é inerente ao homem primitivo, o reflexo do seu desamparo diante das forças da natureza, segundo Freud. As religiões interpretam cada qual a seu modo, a suposta vontade divina. São uma espécie de procuradores de Deus na terra. Cada religião institui os seus dogmas e códigos morais, que geralmente se adaptam à cultura de cada época. O fundamentalismo consiste na tentativa de regredir a roda da história aos dogmas originais. As religiões substituem a luta pela justiça terrena pela promessa do paraíso no céu. Nesse sentido, são o ópio do povo.
        Criticamos as religiões respeitando os sentimentos religiosos do povo. Declaramos inaceitáveis as práticas religiosas que contrariem os princípios básicos da civilização, já consagrados. Por exemplo: o sacrifício de crianças, a mutilação sexual das mulheres, o racismo, o machismo, a vinculação da igreja ao Estado, etc. O fundamentalismo islâmico tenta reintroduzir o islamismo como religião do Estado e a sharia como norma. O sionismo judeu considera os judeus o “povo eleito”, os demais seriam cidadãos de segunda classe. Recentemente, Israel foi declarado Estado judaico, excluindo da cidadania plena os cidadãos árabes de Israel. Combatemos, particularmente, o papel político das igrejas, que em geral atuam como partido político da burguesia.
        A propaganda é um método secundário na crítica às religiões. Apenas a luta de classes pode emancipar o proletariado das suas misérias terrenas, criando as condições para que dispensem a bengala religiosa. Essa luta requer a unidade de todo o proletariado, crentes e ateus. Não por acaso, a burguesia tenta dividi-los instigando o ódio religioso. Todo aquele que coloca querelas religiosas bizantinas acima da luta de classes presta um serviço à burguesia.




       

        

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

DA VITÓRIA APERTADA AO SEGUNDO GOVERNO

                                 
        Dilma venceu as eleições por pequena margem e comandará um governo fraco e de crise. As bancadas do PT e aliados diminuíram e a composição do futuro congresso é ainda mais reacionária. Os trabalhadores decepcionaram-se com o PT, que os traiu. A maior parte da pequena burguesia votou em Aécio e também o proletariado, em grande parte. Dilma perdeu em todos os redutos proletários importantes. Manteve o voto crítico de uma parte dos trabalhadores e principalmente segurou-se na população mais excluída através do Bolsa Família. Marina Silva pintou como alternativa para os descontentes, mas foi com muita sede ao pote no afago à burguesia. Aliou-se à oligarquia nordestina (Eduardo Campos) e aos banqueiros (Itaú). Defendeu a autonomia do Banco Central, os planos de arrocho e se identificou com o reacionarismo pentecostal. Foi “desconstruída” tanto por Dilma quanto por Aécio.
         Fala-se de uma onda conservadora. O avanço do conservadorismo é um fenômeno mundial e tem causas concretas. A crise econômica, os planos de arrocho, a retirada de conquistas e o desemprego levam as massas ao desespero. A polarização política abre duas possibilidades: a reação burguesa ou a revolução social. Como a última alternativa está fora de cogitação em curto prazo,  pelas derrotas do proletariado, pela ausência de uma direção revolucionária e o fim momentâneo das esperanças no socialismo, somente resta a última, a reação burguesa: a demagogia de direita e o fascismo. Na ausência de inimigos reais, a direita os fabrica. Ressuscita o fantasma do comunismo. Todos os movimentos sociais são associados a ele: as greves, o movimento da juventude, movimento gay, feminista, camponês, indígena, negro. Os imigrantes, os nordestinos e os pobres são declarados também inimigos e associados à criminalidade. Quanto a esta, a direita cria o problema e oferece a solução: a redução da maioridade penal, o fim do estatuto da criança e do adolescente, a repressão policial.
As recentes eleições representaram um caso particular desse fenômeno. O PT é indevidamente associado à esquerda e ao comunismo, ou ao bolivarianismo.  Criticam o bolsa família que induziria à acomodação. Ninguém questiona o bolsa banqueiro, dezenas de vezes maior. Esse fantasma em torno do PT não corresponde à realidade. O PT não se apõe à reação burguesa, é refém e cúmplice dela. Isso fica claro mais uma vez na provável composição do novo ministério: Armando Monteiro (ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria-CNI); Kátia Abreu (presidenta da Confederação Nacional da Agricultura-CNA); Joaquim Levy, conhecido como “mão de tesoura” (banqueiro, ex-secretário de Lula, de Pedro Malan, membro da equipe que elaborou o programa econômico de Aécio). Sua missão é clara: implementar a recessão, os juros altos, o arrocho salarial, o desemprego, a retirada de direitos sociais (cortes no seguro desemprego, nas pensões por morte e no abono salarial).  
         Dilma se diferenciou demagogicamente de Aécio pela esquerda, falando contra os banqueiros, Armínio Fraga e a recessão. Isso lhe rendeu frutos eleitorais. Dentro do PT, uma ala assalariada, pretensamente progressista, alimenta essa falsa contraposição entre PT e PSDB, atribuindo ao PT um programa desenvolvimentista. Isso não é verdade. Passadas as eleições, esse “estelionato” se evidencia na composição do ministério. O PT sempre foi um peão do liberalismo. Lula inaugurou o seu primeiro mandato com uma política escandalosamente liberal, posta em prática pelo trio: o mesmo Joaquim Levy, Antônio Palocci e o banqueiro Henrique Meirelles. Foi o paraíso dos banqueiros: a taxa Selic foi jogada para as alturas (26%, mais que o dobro da atual); 4,5% de superávit primário, cortes impiedosos de gastos. O crescimento econômico da época aconteceu apesar dessa política liberal. Ou, mais exatamente, foi a variante mais favorável do liberalismo numa conjuntura propícia. A economia mundial galopava (4,5% ao ano), puxada pela China (11%), grande consumidora de produtos primários (commodities), cujos preços estavam muito altos.
O Brasil surfou nessa onda, a qual mais do que compensou a sua política recessiva interna. Colheu o bônus circunstancial de ser uma semi-colônia, baseada na produção agrícola e mineral. É verdade que Lula aumentou o salário mínimo e ampliou o Bolsa Família. Isso somente foi possível pelas circunstâncias internacionais favoráveis, que não existem mais. A crise econômica, de marolinha virou tsunami. A economia mundial vive uma recessão prolongada. O crescimento chinês reduziu-se quase pela metade. Devemos agora encarar o lado perverso da condição de semi-colônia. Não haverá ampliação do assistencialismo, mas o contrário. Espera-nos o arrocho liberal de Joaquim Levy, sem qualquer contrapeso.
O movimento da juventude de 2013 já foi um sintoma desse mal estar social. Esse movimento foi abortado por um misto de repressão, provocação e demagogia. Os governos, tanto do PT, como do PSDB e PMDB, reprimiram selvagemente as manifestações pacíficas e deixaram correr soltas as depredações, que eles mesmos promoveram através de infiltrados, e também promovidas por alguns ingênuos úteis. O resultado foi o seu esvaziamento. A população voltou-se contra o movimento porque o identificou com o quebra-quebra. Hoje a direita colhe os frutos eleitorais do medo que plantou, elegendo pastores demagogos e a bancada da truculência.

Não haverá golpe

        Existe no mundo uma montanha de capitais ociosos, agravada pela recessão. A sua ojeriza ao risco, os leva a abrigar-se sob as saias largas do Estado. A especulação financeira, protegida pelo Estado, é o modo de existência do capital. Esse capital especulativo exige de Dilma juros altos, aperto fiscal para pagar os juros da dívida, da qual é credor, e planos de arrocho para favorecer a competição internacional. Diligentemente, Dilma colocou-se a postos para cumprir essas ordens e anunciou o trio perverso na gestão da economia, para não deixar dúvidas. Com isso, espantou as ameaças de desestabilização da direita tradicional, pronta para mostrar também os seus serviços. Essa direita não está disposta a aventuras porque a conjuntura não favorece e porque não precisa. Dilma fará o dever de casa. Não existem condições para golpe militar e nem mesmo para impeachment. Não há disposição nem unidade da direita nessa questão. O PDSB não se beneficiaria diretamente disso. Ventila-se a não aprovação das contas eleitorais de Dilma pelo TSE, que levaria à novas eleições. Isso poderia beneficiar o PSDB, mas seria uma aventura com conseqüências incertas e, portanto muito improvável.
        Não haverá golpe. A burguesia prefere guardar essa arma para melhor oportunidade. O segundo governo Dilma será de crises econômicas e sociais. As lutas sociais aumentarão. A sociedade se dividirá ainda mais entre campos opostos. Os trabalhadores enfrentarão uma maior repressão comandada pela unidade dos partidos burgueses (PT, PSDB, PMDB, etc.). O panorama internacional também é de radicalização política. O futuro é incerto, mas nada está decidido de antemão. Devemos nos preparar para ele organizando e conscientizando os trabalhadores, dizendo a verdade como ela é e declarando guerra às ilusões.

A operação Lava Jato

        Essa investigação nada tem de moralizadora. É uma briga entre facções da burguesia (PT, PP, PMDB e PSDB) e serve aos interesses do imperialismo, que pretende enfraquecer e privatizar integralmente a Petrobrás. Não lhe interessa a construção de novas refinarias, mas que o Brasil continue exportando petróleo bruto. Também chantageia e paralisa o governo e a economia. A corrupção na Petrobrás vem de longa data. A propina é uma instituição do Estado, o seu modo normal de funcionamento. Os partidos passam uns para os outros a chave do cofre. Como disse o advogado de um acusado: não existe obra sem propina. A corrupção é inerente ao capitalismo, um não vive sem o outro.
        A operação Lava Jato não visa apurar a corrupção desconhecida, mas chantagear com a já sabida. O fio da meada começou com a investigação acerca do doleiro Alberto Youssef, não por acaso também personagem de outros escândalos, como o do Banestado, nos anos 90. Apesar disso, continuava solto e praticando a mesma atividade. Esse personagem serviu a todos os governos, desde FHC. A investigação, que corria em segredo de justiça, vazou seletivamente às vésperas da eleição, apenas envolvendo o PT. Esse vazamento foi protagonizado por delegados e promotores tucanos, que por ser parcial e em vésperas de eleição caracterizou uma tentativa de golpe eleitoral, que foi denunciado por Dilma. Passada a eleição, o governo usa essa mesma operação para contra-atacar, também envolver o PSDB e subsidiariamente enfraquecer os seus aliados incômodos, o PMDB e a ala petista concorrente.
        Essas escaramuças têm limites estreitos. Não podem ir muito longe sem comprometer o conjunto do regime, do qual todos fazem parte. Existe uma centena de políticos comprometidos, de todos os principais partidos. Serão acobertados pela instituição da impunidade recíproca conhecida como foro privilegiado. A grande novidade é a prisão dos corruptores, os responsáveis pelas empreiteiras. Isso, quem sabe, interesse a quem aposta na paralisação das obras. No fundo, é mais um jogo de cena. Neste momento, provavelmente já exista um acordo para o acobertamento entre as partes (PT, PP, PSDB e PMDB), pondo limites na investigação, o que não exclui que a briga sobre certos aspectos continue.
        Na ampla mesa dos réus, está vazia a cadeira do criminoso principal, o sistema financeiro: máquina de lavagem de todo o dinheiro sujo do mundo. Não por acaso, ninguém põe a mão nos bancos suíços e nos paraísos fiscais. Quanto às empreiteiras, a maior corrupção não está nas propinas e no superfaturamento das obras, mas nas obras em si. Estas não são, como se pensa, decididas pelo governo em função de interesses sociais e econômicos, mas pelas empreiteiras, que de fato representam o verdadeiro ministério do planejamento. Elas apresentam ao Estado o seu plano de obras no qual a sua finalidade (produção de energia, petróleo, etc.) é uma questão secundária. O que importa são os custos exorbitantes da obra, que quanto mais difícil e cara melhor. Conta-se que certo ministro da ditadura recebeu o representante de determinada empreiteira que lhe apresentou uma proposta de construção de um túnel subterrâneo ligando São José do Norte a Pelotas. O ministro teria respondido: com esse dinheiro eu troco a cidade de lugar. Certamente, essa atitude foi uma exceção. Isso ilustra a relação promíscua entre empreiteiras e o governo, qualquer que seja. Serve também de retrato do capitalismo na sua fase decadente: corrupto, ineficiente, especulativo e parasitário.