domingo, 2 de agosto de 2015

O “ULTRA-ESQUERDISMO” DE DIREITA DO PSTU


         O PSTU está sendo criticado por parte da esquerda (PCO, etc.) e mesmo pela revista Carta Capital com base num vídeo onde Zé Maria defende que se deve “derrubar esse governo”, “por Dilma para fora” e “criar uma alternativa de trabalhadores ao governo”. Em resposta a essas críticas, publicou uma nota oficial, onde diz: “O PSTU não está propondo o impeachment de Dilma. Não queremos colocar nas mãos deste Congresso Nacional corrupto a solução da crise vivida pelo país”. “O que o nosso partido propõe é que os trabalhadores, . . . , se organizem e lutem para derrubar o governo Dilma, mas também Aécio Neves, Eduardo Cunha, Michel Temer e toda esta corja”.
        Essa crítica ao PSTU, mesmo que correta, é feita por quem não tem autoridade política para criticá-lo, porque parte dos apoiadores do governo, em nome do combate a um possível golpe de Estado. Não sabemos dizer quem é pior. O PSTU tem toda razão quando lhes devolve a crítica: “Fazer o jogo da direita não é lutar contra esse governo, do qual a direita faz parte, . . . , é tentar defender, fazer manifestações para blindar um governo que é repudiado, e com toda razão, pelos trabalhadores. É isso que deixa nossa classe nas mãos dessa falsa oposição que aí está”.
        O crime do PSTU não está em criticar o governo, mas em propor o Fora Dilma, que é, na aparência, radicalmente distinto do objetivo da direita. Propõe: colocar Dilma pra fora e criar um governo dos trabalhadores, sem patrões. A direita quer derrubar Dilma para criar um governo antipopular ainda mais repressor. Essas alternativas, aparentemente antagônicas, se transformam, na prática, uma na outra, pela simples razão de que a primeira não existe. O PSTU sabe disso, está fazendo conscientemente o jogo da direita. Os trabalhadores não estão em condições, em prazo razoável, de “colocar Dilma pra fora”, mas a direita está. É por isso que a palavra de ordem “Fora Dilma”, na atual conjuntura, serve exclusivamente a esta.
        O PSTU confunde a propaganda do poder proletário com a agitação do “abaixo o governo Dilma”, ele que sempre se omitiu da propaganda do socialismo, o que faz esporadicamente em artigos de jornal, apenas para a vanguarda. Jamais se dirige às massas para denunciar o capitalismo, e denuncia quem o faz, a quem rotula de “ultra-esquerdista”, ou a “ultra”, no seu jargão oportunista. Porque será que, justamente agora quando há um movimento golpista de direita, o PSTU se fantasia de ultra, propondo derrubar Dilma e criar um governo dos trabalhadores? Não seria a sua forma de aderir à direita, disfarçado de esquerda?
        Faz parte do passivo político do PSTU o seu tradicional apoio às intervenções dos Estados Unidos (Líbia, Síria, Ucrânia), sempre mascarado de apoio à supostas revoluções democráticas. No Brasil, opõe-se ao governo Dilma por razões legítimas, como o combate aos ataques liberais, mas também por outras razões inconfessáveis, ou seja, pelo mesmo alinhamento ao imperialismo dominante e à opinião pública pequeno burguesa. Os EUA não vêem com bons olhos a participação do Brasil nos BRICs e os seus negócios com a China, embora Dilma também esteja se submetendo a ele e implementando o seu programa.
        Essa política antipopular do governo o desgasta diante das massas e alimenta a campanha golpista de parte da direita, que mobiliza a opinião pública pequeno burguesa. Isso seduz o PSTU (cuja política se dirige ao mesmo setor social), mas não adere abertamente a essas marchas por senso de preservação. Já o MRS, participa delas sem culpa. No nosso país, o PSTU não pode se alinhar abertamente à direita, como o faz na Síria e na Ucrânia, que estão muito longe das suas bases. Daí porque a sua proposta de Fora Dilma vem justificada por um fantasioso governo dos trabalhadores. O seu “ultra-esquerdismo” serve para dar uma aparência de esquerda à sua capitulação, tentando agradar tanta a esquerda quanto a direita. Mas ninguém serve a dois senhores. Não é ao proletariado a quem serve o PSTU.






quarta-feira, 29 de julho de 2015

GRÉCIA: NOVA COLÔNIA DA UNIÃO EUROPEIA

       O acordo entre o governo grego (Syriza/ANEL) e a Troika (Banco Central Europeu, Comissão Européia e FMI) transforma a Grécia numa colônia. Até mesmo as propostas de lei devem ser apresentadas previamente à União Européia. Foi um golpe de Estado contra o povo grego. O Syriza passa a ser o executor desse plano. Tsipras tentou embelezar a capitulação: “um acordo difícil, mas que permite continuar a luta”. Isso contrasta com vozes do próprio imperialismo. O economista Paul Krugman afirma: “Isso é um golpe! A lista é mais do que dura, é vingança pura, destruição completa da soberania nacional e sem esperança de alívio”. Ou, como afirma a revista alemã Der Spiegel: “um catálogo de crueldades à Grécia”. A Grécia foi colocada à venda e criado um fundo de privatizações. Os impostos serão aumentados, bem como, a idade mínima para aposentadoria. Os contratos individuais se sobreporão aos coletivos.
 Alguns analistas relacionam esse acordo ao Tratado de Versalhes. Alguém o comparou ao Tratado de Brest-Litovsk (cidade polonesa) entre a Alemanha e a Rússia soviética (03.03.1918), avaliando que era um mal menor em relação à expulsão do Euro. Ao final da guerra, o exército russo estava sem condições de resistir à Alemanha. O tratado entregava a Ucrânia e a Bielo-Rússia, mas preservava o poder soviético, que ganhava tempo para consolidar-se. O acordo da Grécia com o Eurogrupo não tem qualquer relação com Brest-Litovsk. A Grécia não ganha fôlego, não cria possibilidade de recuperação e não tem uma revolução a preservar. O governo Syriza já está reprimindo as manifestações populares. Passa a governar apoiado nos partidos pró-imperialistas (Pasok, Nova Democracia, Potami), que ele mesmo havia derrotado.

O reformismo não passou na prova grega.
        Aqueles que apoiam o Syriza o ajudam a trair o povo. Entretanto, os críticos ao acordo não desempenham melhor papel. A Plataforma de Esquerda, tendência do Syriza, votou contra o acordo mas não rompeu com o partido e o governo. A Antarsya (Coalisão de Esquerda Anti-capitalista) de anti-capitalista não tem nada, é uma oposição burguesa. A maioria da esquerda mundial propõe a frente única com essa esquerda grega, que no máximo propõe o rompimento com a Eurozona. O reformismo, quando na oposição, costuma ser radical. Uma vez no governo, esquece o seu radicalismo.
         A Eurozona é uma camisa de força a serviço dos bancos, que esmaga principalmente os países periféricos, que não têm instrumentos para resistir: não tem moeda própria, o euro controlado pelo Banco Europeu, e com baixa produtividade. O rompimento com o euro somente é viável com a estatização do capital, principalmente, os bancos, e com o monopólio do comércio exterior. A nada disso se propõe essa esquerda. A unidade européia sob o capitalismo significa a escravização do mais fraco pelo mais forte.
        A esquerda internacional, após o acordo, está posando de radical, o que é uma fraude política. A maioria está contra a capitulação do Syriza, mas até a véspera o ajudou a colocar areia nos olhos dos trabalhadores. Apoiou acriticamente o referendo. Até as pedras sabiam que o governo apenas procurava respaldo para negociar outro acordo. Porque, então, a esquerda não preveniu o povo da traição anunciada? Nem sequer chamou voto crítico no não. Pelo contrário, voltou as suas baterias contra o Partido Comunista, o único que alertou contra essa traição, propondo a colocação na urna da seguinte proposta: “Não à proposta da União Européia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional; Não à proposta do governo. Saída da União Européia e classe trabalhadora no poder”. Isso foi tachado de sectarismo e divisionismo por toda a esquerda oportunista (LIT/PSTU, UIT/CST, PTS/MRT (ex-LER), etc.).
        Após o referendo, essa esquerda se fez de muito surpresa com a traição e sacou do colete o seu programa radical. Veremos apenas o programa da LIT, que é um retrato dos demais: “- Não a qualquer plano de austeridade; - Não a todas as medidas da Troika!; - Não à divida; - Pela imediata nacionalização da banca!; Por um plano de resgate dos trabalhadores e do povo!; - A vitória obtida no referendo deve ser defendida nas ruas com a mobilização!; - Fora o pacto Syriza, Pasok, ND”.
        Como se pode falar em vitória? A vitória do não no referendo respaldou a traição do Syriza que resultou no pacote de maldades da União Européia. A esquerda e a LIT se lembraram de defender “não a qualquer plano de austeridade”, apenas após o referendo. Antes disso, respaldaram o governo e o seu plano que estava na manga e todo mundo sabia.  Chamaram de sectarismo a proposta do PC de incluir no referendo exatamente isso, ou seja, não a qualquer plano de austeridade.
         A sua palavra de ordem “não à dívida” é incoerente. A dívida brasileira e argentina é tão fraudulenta quanto a grega. Aqui e na Argentina, essas correntes não fazem qualquer agitação de massa contra a dívida. Fazem apenas declarações para a vanguarda nos seus jornais. Também não fazem qualquer propaganda para as massas das tarefas do socialismo. A sua política do dia a dia é o economicismo rebaixado. A proposta de “nacionalização da banca” é ainda mais irônica. Alguém, por acaso, já leu na plataforma eleitoral do PSTU: - pela expropriação dos bancos e das multinacionais? É fácil ser radical para a Grécia, com o atlântico a nos separar.
         Após romper tardiamente com o Syriza, a esquerda passa a apostar na equivalente grega (Plataforma de Esquerda e Antarsya): “É necessário construir organismos de frente única que possam, nas ruas e locais de trabalho, combater os planos da Troika e promover toda a medida de mobilização dos trabalhadores e do povo, e com apoio internacional. Essa é a única via para derrotar o ataque imperialista e construir uma saída operária para a Grécia e Europa” (LIT). Convocam a raposa para cuidar do galinheiro. Não se pode descartar frente única eventual com alguns setores dessa esquerda contra os planos de austeridade, mas colocar nas suas mãos a tarefa de “construir uma saída operária para a Grécia” equivale a debochar dos trabalhadores, como se esta se dispusesse a romper com o capital. Os métodos devem ser coerentes com o programa.
        Mesmo que a LIT e todo o “trotskismo” estivesse à frente do proletariado grego, nem assim essa pretensa “saída operária para a Grécia” deixaria de ser demagógica. Basta lembrar que o seu programa é a revolução democrática, etapa anterior à revolução proletária. Não se pode romper com a União Européia e estatizar os bancos por via parlamentar, sem insurreição popular. A prova dos nove de uma política revolucionária não está nos discursos socialistas de dias de festa, mas no trabalho coerente pela insurreição proletária. Não propomos aventura, mas a criação de condições para a emancipação do proletariado.

E o Partido Comunista grego?
        Um setor da esquerda alinha-se ao Partido Comunista grego (no Brasil, a LBI). Nós também consideramos que o PC teve uma posição correta no referendo: “Não às propostas da União Européia; e, não às propostas do governo”. A frente única com ele contra os planos da Troika é uma necessidade. Entretanto, diferente da LBI, não delegamos ao PC a tarefa de encabeçar a revolução socialista, porque o seu programa e métodos são contraditórios com esses objetivos. Lembramos que se trata de um partido estalinista, que não defende a soberania popular, baseada nos conselhos de trabalhadores. Também devemos desconfiar da sua amizade com a Rússia, como expressa seu secretário geral, Dimitris Koutsoumpas: “Podemos utilizar as contradições entre os centros imperialistas e alcançar acordos internacionais de benefício mútuo para a Grécia sob o poder popular, o qual estará desligado da U.E. e da NATO”. Em geral, é correto tirar proveito das divisões entre os nossos inimigos, mas não podemos achar que a Rússia é amiga do povo grego e acreditar que a Grécia possa se beneficiar de “acordos internacionais” com a Rússia e a China.
        Na nova guerra fria entre os blocos EUA/Europa, de um lado, e Rússia e China, de outro, estas últimas estão numa posição defensiva. Assim como a Rússia não pode tolerar os mísseis da OTAN em Kiev, a Europa não tolerará a tutela da Grécia pela Rússia e China, a quem não convém comprar briga com aquela. E mesmo que resolvam socorrer a Grécia, não o fariam caso esta fizesse uma revolução proletária. Uma revolução grega vitoriosa colocaria Rússia e China, não ao seu lado, mas da Europa. Então, o PC grego ficaria diante do dilema: ou de frear a revolução ou romper com os seus aliados.
        A LBI ainda levanta a sua tradicional proposta de greve geral. Tudo o que a Grécia não precisa. Em cinco anos, houve 32 “greves gerais” na Grécia. Greves gerais demonstrativas, sem continuidade, que não pretendem conquistar nada, obstáculo que a burocracia coloca entre o povo e a revolução. Essa mesma burocracia que defendeu o sim no referendo. Nos últimos 40 anos, houve uma centena de greves gerais no mundo e apenas uma greve geral revolucionária (no Uruguai, anos 80, que durou quinze dias). A proposta de uma verdadeira greve geral revolucionária é uma abstração, porque, nas condições atuais, somente a burocracia pode convocar tais greves, que servem para amortecer a luta de classes e evitar a insurreição popular.

Uma proposta para a Grécia
        Não somos pessimistas. Vivemos uma profunda crise de organização e de consciência dos trabalhadores. Fato que não é novidade e não dura para sempre. A política do capital de destruição das conquistas populares cria as condições para a retomada das lutas, como está ocorrendo na Grécia e outros países. Essa resistência trará novamente a sua indispensável organização. O momento é de luta por criar as condições para a revolução proletária. Isso passa pela derrota da burocracia sindical, pelo desmascaramento do reformismo nas suas mais diversas variantes. É de luta pela soberania popular, sinônimo de organização de base, cuja expressão máxima são os conselhos populares. Nada disso acontece espontaneamente. Somente a criação de um partido revolucionário pode tornar efetiva a luta por esses objetivos.
        Essas são as tarefas gerais para a Grécia. Combater sem tréguas o governo capitulador do Syriza, aliado da direita, em unidade com quem estiver disposto a mobilizar as massas. Combater a burocracia sindical. Não depositar confiança na esquerda reformista (Plataforma de Esquerda e Antarsya), nem mesmo no PC. Lutamos pelos Estados Unidos Socialistas da Europa, o que implica romper com a escravatura da Eurozona, o que não pode ser feito por dentro do capitalismo. A vitória do socialismo não pode acontecer por via parlamentar, mas por via insurrecional. Um governo proletário não se sustentará se não for apoiado por um amplo movimento internacional de trabalhadores. A denúncia da extorsão capitalista sobre a Grécia, apelidada de dívida externa, é uma condição para esse movimento. O imperialismo europeu tem os pés de barro. Não resistiria a um movimento consciente das massas. A Grécia não está sozinha. Os amigos do proletariado grego são os seus irmãos escravizados europeus e o proletariado internacional.



domingo, 5 de julho de 2015

ALERTA CONTRA O OPORTUNISMO “FRENTISTA”

                          
         É fácil reconhecer os variados oportunismos pelos seus chavões políticos, verdadeiras receitas gerais: defesa da revolução democrática; Assembleia Constituinte; Revolução Permanente; Frente Única Antiimperialista (FUA); Greve Geral. Este é um texto de critica à Frente Única Antiimperialista na versão da Liga Comunista. Recentemente publicamos outro texto, A Nova Guerra Fria e a Luta de Classes, onde caracterizamos dois setores do “trotskismo” que apoiam respectivamente um ou outro desses imperialismos. Entre aqueles que apoiam o bloco Rússia/China, citamos a Liga Comunista: “apoiam também politicamente os governos das semi-colônias que estão sendo desestabilizados pelo imperialismo. O traço característico das suas políticas é a proposta abstrata e capituladora de frente única”. Ela então nos respondeu com o texto Combate ao Sectarismo Pró-imperialista. Essa versão de FUA faz parte de uma escola oportunista.
        A LC nos acusa de falsificar as suas posições: “toda a sua argumentação se baseia na falsificação das nossas posições “embelezando e apoiando de fato os governos burgueses dessas nações”, sem citar uma vez sequer a tal posição criticada em qualquer documento nosso. É assim porque a posição criticada SIMPLESMENTE NÃO EXISTE e qualquer um que leia as declarações da FCT e não precise apelar para a má fé para nos detratar constatará isto, pois uma das características básicas da política da FCT é a sua defesa (da) frente única sem prestar qualquer apoio político aos aliados vacilantes e circunstanciais que dirigem o movimento de massas ou as nações oprimidas ameaçadas”.
        Não há falsificação. Não citamos nenhum documento seu por se tratar de um texto de conjuntura e porque o oportunismo não se assume como tal. Jamais encontraríamos nos textos da LC prova explícita do seu oportunismo. A prova é sempre uma interpretação. O que dissemos nesse texto já foi dito e provado em outro, A Frente Única Segundo a Liga Comunista: “A Frente Única Anti-imperialista não faz parte do programa da IV Internacional. Não é verdade que a defenda, apenas sem utilizar a denominação, como afirma o Socialist Fight. Não, a IV Internacional não se valeu dessa tática porque não existem mais as condições da década de 20, principalmente, um partido revolucionário. A FUA é um “acordo prático” entre organizações de massa. Carece de sentido a sua defesa por pequenas organizações. Nunca foi uma tática universal, como o defendiam Lambert, Lora e agora a Liga Comunista. Pierre Lambert ressuscitou a FUA como tática política, fora de contexto. Na Bolívia, Guilhermo Lora aderiu à FUA lambertista, que passou a fazer parte da sua política permanente. Essa FUA lorista nada tinha a ver com as Teses do Oriente, (Teses da III Internacional, 1922) mas a uma versão “trotskista” de frente popular. Pressupunha a existência de uma ala progressista da burguesia”. “Ret Marut e a Liga Comunista não se dão ao trabalho de analisar a conjuntura atual comparativamente com a da época”.
 A LC nega a necessidade de um partido revolucionário como condição para a FUA. Para as Teses do Oriente, a luta pela direção da Frente Única era uma tarefa para os partidos comunistas (Capítulos V e VI). Ao contrário, a FUA da LC deve realizar-se entre governos ou partidos burgueses e pequenos grupos, como se estes pudessem fazer um acordo com esses governos. Quando condicionamos a FUA à existência de partidos proletários, nos acusam de valer-nos de “uma metodologia confusa de pensamento”. Toda a tradição marxista vincula qualquer tática aos partidos proletários: “o elemento essencial de uma manobra, como de toda a ação histórica da classe operária, é o partido” (A Internacional Comunista Depois de Lênin).
        Segundo a LC, “logo descobrimos que a LM é anti-FUA, ou seja, pró-imperialista”; “mas não dizem o porquê”. Não somos contra a FUA em geral, somos contra a FUA oportunista da LC e dissemos o porquê no texto mencionado (A Frente Única Segundo a Liga Comunista), e repetimos: a inexistência de partido revolucionário; a integração total das burguesias nacionais ao imperialismo. Isto, para LC, é ser pró-imperialista. A FUA da LC é uma estratégia, a mesma de Lambert e Lora. Não fosse assim, não a proporiam como uma panaceia universal, capaz de curar câncer e “mau olhado”, na Líbia, Síria, Venezuela, Brasil, Ucrânia, etc. É óbvio que para a LC a FUA não se trata de “acordos práticos”, porque estes somente são possíveis em situações perfeitamente delimitadas, que não são regra: “É evidente que não podemos, no futuro, renunciar a acordos semelhantes, rigorosamente limitados e servindo cada vez a um objetivo claramente definido” (idem).  
        A política marxista é concreta. Nem sempre são possíveis acordos práticos. Ao propor a FUA, como receita válida universalmente, a LC pressupõe a existência de uma burguesia anti-imperialista, mesmo que o negue. É uma lógica insofismável. Tanto é assim que considera até mesmo a Al Qaeda anti-imperialista. Isso seria válido para o chavismo, embora também o critiquem. Isso significa embelezar esses governos, que seriam supostamente nacionalistas. Não caluniamos. A sua afirmação de que “todo chamado à frente única se faz sem depositar nenhuma confiança nos aliados”, não melhora em nada, piora. Com uma declaração formal, a LC pretende disfarçar a sua política conciliadora.
        A LC, para justificar a sua receita de FUA, comete uma extrema generalização e falsificação histórica: “Toda a história das revoluções no pós-guerra comprova que onde a política de frente única anti-imperialista não foi desviada em frente popular, se edificaram Estados Operários (Iugoslávia, China, Coréia do Norte, Vietnã, ...)”. Isso é uma inverdade rematada. Tomemos o caso exemplar da China. Onde a frente única com a burguesia nacional, representada pelo Kuomintang, ajudou na vitória da revolução socialista? Pelo contrário, nas aventuras revolucionárias de Cantão e Xangai de 1926/27, o Kuomintang massacrou os conselhos populares e estes, antes de serem derrotados, o colocaram na ilegalidade. Desde então, o movimento revolucionário se fez contra o Kuomintang. 
       
O schachtmanismo
        A LC nos rotula de “a versão gaúcha do schachtmanismo”, que seria um câncer que “alastrou-se por quase todas as correntes que reivindicam o legado de Leon Trotsky”. Também lutamos contra esse “câncer”, que a LC não explica o que seja. O próprio termo revela o seu pedantismo com ares de sabedoria. Schachtmanismo se refere a Max Schachtman, dirigente na década de 30 de uma fração do SWP, partido da IV Internacional nos EUA. Schachtman defendia a luta em duas frentes simultâneas, na segunda guerra mundial, tanto contra Hitler, quanto contra Stálin. Trotsky respondeu: “naturalmente que isso é bem mais atraente”. Essa seria a condição mais favorável. Mas, “o problema é colocado assim: o que fazer se Hitler, antes de ser derrotado pela revolução, atacar a Ucrânia antes que a revolução tenha derrotado Stálin?” Nesse caso, “a IV Internacional responde: defenderemos esta Ucrânia escravizada por Stálin, contra Hitler”.
        Esse é o dilema atual nas agressões imperialistas às semi-colônias, como a Síria. Tanto Obama como Assad são nossos inimigos, mas não podemos compará-los. O imperialismo é o inimigo principal dos povos. Muitos grupos “trotskistas” caem no canto de sereia da luta em duas frentes, ou no schachtmanismo, segundo a LC. Essa nunca foi a nossa política. O nosso texto, A Nova Guerra Fria e a Luta de Classes, critica explicitamente o schachtmanismo: “existem também aqueles que defendem a luta em duas frentes: contra as ditaduras e os bombardeios da OTAN. Essa suposta terceira via, transformou-se numa variante da política pró-imperialista dos demais”; “Trotsky combateu, na IV Internacional, as frações internas que defendiam esse tipo de combate em duas frentes”; “os marxistas perfilam-se ao lado das nações oprimidas, como o fizeram na China, contra o Japão, por exemplo”.
         Defendemos a Líbia, sob a direção de Kadafi, contra a OTAN (ver Entre dois Oportunismos) e a Síria, sob Assad. Seriamos schachtmanistas porque fomos contra a frente única com Kadafi, e somos contra com Assad. Dizemos que a frente única não se aplica entre um governo e pequenas organizações, o que não nos impede de tomar uma posição anti-imperialista: “A defesa das nações oprimidas é uma obrigação de qualquer organização. As pequenas organizações  não fazem acordos com governos nacionais. Apoiamos a Síria, mas não é possível uma frente única com Assad. O apoio é unilateral e incondicional. O proletariado apóia as nações oprimidas com os seus próprios métodos: agitação, propaganda, denúncias, greves, boicotes, etc. É isso que está ao alcance das pequenas organizações. Não a abstrata frente única” (A Frente Única Segundo a Liga Comunista). Para a LC, quem não é a favor da sua fantasiosa frente única, seria schachtmanista e pró-imperialista.
        Seriamos também schachtmanistas na questão da Ucrânia, porque não somos favoráveis à sua política de frente única com a Rússia e por isso estaríamos em “cima do muro”. Ser contra a frente única permanente com a Rússia, não implica estar em cima do muro no combate ao fascismo. Será que os companheiros não conhecem a política bolchevique para a guerra imperialista, que se convencionou chamar de derrotismo? Ou jamais ouviram falar do Manifesto da IV Internacional para a segunda guerra mundial? É mais provável que conheçam. Nesse caso, deveriam chamar também Lênin e Trotsky de schachtmanistas. Alguns grupos chegam a definir o derrotismo como a defesa da derrota do próprio país. Isso seria o suicídio político. Derrotismo é a política independente do proletariado nas guerras imperialistas, que não apóia nenhum dos blocos em luta e procura transformar a guerra imperialista em luta pelo seu próprio poder. Dignifica considerar que o inimigo principal está em casa. A primeira obrigação do proletariado é combater a sua própria burguesia, mesmo que isso possa levar à vitória do inimigo. Essa foi a política de Lênin na I Guerra Mundial. Não apoiou a Rússia contra a Alemanha, considerando a defesa da pátria um crime. Os bolcheviques só se transformaram em defensistas, ou seja, favoráveis à defesa da pátria, após a tomada do poder.
        Uma política defensista ou derrotista depende do caráter dos países envolvidos. O defensismo se aplica nos casos de uma agressão imperialista contra uma colônia ou semi-colônia. O derrotismo, para as guerras inter-imperialistas. É fundamental definir se esses países são imperialistas ou colônias e semi-colônias. No caso da Ucrânia, de um lado está os Estados Unidos e seus marionetes fascistas, e de outro a Rússia. Nós definimos a esta como um imperialismo nascente. Toda a política de LC leva a crer que a considera uma semi-colônia, embora a defina como uma potência capitalista sui-generis, o que é uma definição ambígua porque não esclarece se é imperialista ou semi-colônia. A Rússia age nas suas imediações como imperialista: Chechênia, Abkassia, Ossétia, Geórgia, Ucrânia, e agora na anexação da Criméia. Nenhuma semi-colônia anexa território, principalmente, contra a potência dominante. Alegar que era a vontade da população, não exclui que seja uma anexação. É insofismável, nem Putin nega, só a LC. Reconhecer isso não quer dizer “repercutir a propaganda de guerra do imperialismo contra a Criméia, Repúblicas de Donbass e a Rússia”.
        Os Estados Unidos são o imperialismo agressivo, que está cercando a Rússia e chega às portas de Moscou ao promover o golpe fascista na Ucrânia. A anexação da Crimeia, pela Rússia, é defensiva. Nem por isso, devemos apoiá-la. Defendemos a independência política do proletariado ucraniano em relação aos dois imperialismos, a transformação da guerra imperialista em luta pelo poder. Não é luta em duas frentes, porque o inimigo principal está em casa, o fascismo apoiado pelos Estados Unidos. Essa é uma tarefa do proletariado, que não delegamos a Putin. Para a LC, o fato de não apoiarmos a Rússia, ou não propormos frente única com ela, seria apoiar o imperialismo e seus prepostos fascistas. Para nós, o fato de a Rússia estar na defensiva não a torna o mal menor. Os Estados Unidos promove as hordas fascistas de Kiev. A Rússia também enviou para a ocupação da Crimeia batalhões monarquistas, a versão russa do fascismo. O fascismo ucraniano é mais perigoso e tem o apoio do imperialismo mais forte. Mas a Rússia não é garantia contra o fascismo em geral, embora esteja lutando contra o fascismo na Ucrânia. O fascismo europeu divide-se entre o apoio a Kiev e a Moscou. Houvesse uma revolução proletária no Donbass, veríamos Putin mostrar as suas garras. Logo faria um acordo com Kiev e mandaria para o Donbass o seu próprio fascismo.
        A proposta de frente única permanente com a Rússia é um crime. Significa embelezar o regime russo de oligarcas, que estão por trás de Putin. Caso houvesse um movimento proletário independente no leste da Ucrânia, este poderia eventualmente estabelecer acordos temporários com a Rússia, enquanto esta não passar para o outro lado.  Mas isso dependeria de circunstâncias muito particulares e concretas, impossíveis de estabelecer de antemão. A proposta de frente única da LC peca por ignorar a falta de tal movimento organizado e por se antecipar aos fatos imprevisíveis, como se a Rússia fosse permanentemente anti-imperialista. É uma capitulação à Rússia. O proletariado ucraniano deve ser educado na desconfiança em relação ao regime russo, como inimigo, não como aliado permanente, como pressupõe essa proposta de frente única. É também criminosa a proposta de anexação do Donbass pela Rússia. Supõe que esta seja a salvação e não o poder do proletariado. Este deve enfrentar um inimigo de cada vez, de acordo com o perigo que cada qual representa. O fascismo ucraniano é o inimigo de casa, mais perigoso e agressivo. Deve também saber utilizar, em proveito próprio, a briga entre os seus inimigos.

A frente única com Dilma
        Segundo a LC, a LM defenderia que “não se deve combater com todas as nossas forças e por todos os meios a direita golpista e chamar uma frente única contra o imperialismo e a oposição de direita golpista ...”. Sim, devemos combater a oposição de direita, mas não através da frente única permanente com Dilma, CUT, UNE, MST, etc., porque nenhum desses está combatendo a direita. Quando mais Dilma capitula, mais a direita exige e mais audaciosa se torna. Devemos apoiar a luta contra a direita, por mínima que seja, mas não podemos apoiar o governismo, participando dos atos governistas da CUT, disfarçados de luta, e votando em Dilma, como faz a LC. É preciso avaliar bem cada “luta” concreta. É a política antipopular do governo que joga as massas no colo desta. É a denúncia do governo que a enfraquece, retirando dela o monopólio da critica. É um tiro no pé qualquer identificação com o regime. Somos contra o golpe, tanto na forma de golpe militar como impeachment, porque seria uma derrota dos trabalhadores e abriria um período de maior repressão.
        A LC tenta disfarçar de bolchevismo a sua capitulação representada pelo voto em Dilma. Os bolcheviques defenderam “apoiar a burguesia contra o tzarismo (na segunda fase das eleições ou nos embates eleitorais, por exemplo)...”. Isso é completamente fora de contexto. Na época bolchevique, se tratava da revolução democrática contra a monarquia semi-feudal. Lênin considerava que os agentes sociais da revolução seriam o proletariado e os camponeses pobres, contra a burguesia liberal. Mesmo assim, por se tratar de uma revolução democrática, era possível alguns acordos práticos com ela. Esse foi o caso do voto crítico, nos segundos turnos eleitorais, no partido Kadete (Liberais Constitucionalistas) contra os partidos monárquicos. Somente a deturpação histórica da LC vê semelhanças com a atualidade.
        Não somos “objetivamente adversários de toda a qualquer frente única”. Somos adversários do método oportunista de frente única da LC. Também não é verdade que defendamos que “nem sequer se deve participar de greves cuja direção é burocrática”, e seríamos por isso “fura greves”. Participamos dos sindicatos dirigidos pela burocracia e de suas greves (CPERS e SIMPA). Mas não somos apêndice da burocracia, como a LC, a ponto de participar inclusive das suas greves patronais, como as greves da CNTE de apoio ao PNE (Plano Nacional da Educação) liberal, ditado pelo Banco Mundial. Não participados dos atos nacionais da CUT quando são de apoio ao governo Dilma. Preferimos ser esse tipo de “fura greve” do que ser cúmplices da traição da burocracia aos trabalhadores.
        Temos apenas um acordo fundamental com a LC, de que as nossas políticas são realmente opostas.
                                                                    




quinta-feira, 4 de junho de 2015

A NOVA GUERRA FRIA E A LUTA DE CLASSES


        A conjuntura internacional está determinada por uma disputa entre o imperialismo dos Estados Unidos/Europa e o bloco Rússia/China, que condiciona a política de toda a esquerda. Em geral, os “trotskistas”, disfarçando uma política marxista, levam água ao moinho de um ou outro desses blocos. Grupos como LBI, Liga Comunista (CLQI), Coletivo Lênin, seguindo o rastro dos estalinistas, apóiam politicamente o novo imperialismo Russo/chinês, como se fossem semi-colônias. Apóiam também politicamente os governos das semi-colônias que estão sendo desestabilizados pelo imperialismo. O traço característico das suas políticas é a proposta abstrata e capituladora de frente única.
        Outro setor da família “trotskista”, objetivamente alinha-se com os Estados Unidos/Europa através de políticas variadas. As suas características mais importantes são: batizar de pretensas revoluções as agressões imperialistas; maquiar a realidade para adaptá-la à sua política; colocar-se aparentemente contra os bombardeios da OTAN, mas apoiá-los na prática; abandonar o princípio leninista da defesa incondicional das nações oprimidas, sob pretexto de tratar-se de ditaduras sanguinárias; uma pretensa política de combate em duas frentes, tanto contra a OTAN como contra as ditaduras.
        Os bolcheviques propunham a defesa das semi-colônias agredidas pelo imperialismo, independentemente das suas direções, sejam ditaduras ou regimes democráticos burgueses. A vitória de uma nação oprimida debilita o domínio internacional do imperialismo, que é o inimigo principal dos povos. Não se pode igualar um ditador de uma semi-colônia, por mais sanguinário que seja, com os chefes do imperialismo. Trotsky apoiou a Abissínia contra a Itália, apesar do seu ditador sanguinário; a China contra o Japão, apensar de Chang Kai Chek. E resumiu assim a sua política: “em uma luta entre uma república civilizada, imperialista, democrática, e uma monarquia atrasada, bárbara, de um país colonial, os socialistas estão totalmente do lado do país oprimido, apesar da sua monarquia, e contra o país opressor, apesar da sua democracia” (Escritos).
        O primeiro bloco de “trotskistas” não esquece o princípio da defesa das nações oprimidas. No entanto, o faz embelezando e apoiando de fato os governos burgueses dessas nações. Sacrifica o princípio da independência de classe, caracterizando esses governos como nacionalistas, anti-imperialistas, ou seja, progressistas. Em geral, têm dado apoio eleitoral a partidos burgueses. E diante da agressão militar, têm proposto a Frente Única com eles, o que é uma abstração, porque nesses países não existe partido revolucionário e movimento independente do proletariado. Essa seria uma F.U. entre o governo nacional e o nada. E na hipótese de existência de tal partido, essas ditaduras não aceitariam qualquer frente única com o seu proletariado. As burguesias nacionais reacionárias atuais serão sempre derrotistas diante dos seus trabalhadores. A Frente Única proposta pelas Teses do Oriente em 1922 caducou como tática privilegiada. Foi ressuscitada, com um século de atraso, como cobertura para sua capitulação. Hoje, como então, não é a FU o método principal de defesa das nações oprimidas. O proletariado deve defendê-las com seus próprios métodos: manifestações, greves, boicotes, denúncias, agitação, e, se possível, de armas na mão.
        O segundo bloco de “trotskistas”, abandona completamente o método da defesa das nações oprimidas, embora se digam contra os bombardeios da OTAN. Toda a sua política é de apoio à intervenção imperialista, inclusive, pedindo armas para os “rebeldes”, ou seja, para os prepostos do imperialismo. Essa esquerda alega a existência de uma suposta revolução nesses países, concomitante com a intervenção externa, como forma de cobertura para a sua capitulação. Para uns (LIT, UIT, etc), seria uma revolução democrática. Os supostos agentes da “revolução democrática” têm sido organizações islâmicas ou fascistas (Ucrânia). Isso é uma maquiagem vergonhosa da realidade.
Existem também aqueles que defendem a luta em duas frentes: contra as ditaduras e os bombardeios da OTAN. Essa suposta terceira via, transforma-se numa variante da política pró-imperialista dos demais. Todo o centro da sua política está na pretensa “revolução” e não no combate ao imperialismo, que é colocado em pé de igualdade com as ditaduras de terceiro mundo. Trotsky combateu, na IV Internacional, as frações internas que defendiam esse tipo de combate em duas frentes. A luta política é realmente em duas frentes, contra a burguesia nacional e o imperialismo. A luta de classes não pára durante a defesa nacional. Em termos militares, o combate em duas frentes é uma capitulação. Os marxistas perfilam-se ao lado das nações oprimidas, como o fizeram na China contra o Japão, por exemplo.

A ASCENSÃO RUSSO/CHINESA E A NOVA GUERRA FRIA
        Após a restauração do capitalismo nos ex-Estados Operários burocratizados, o imperialismo americano/europeu tenta submeter a Rússia e a China. Nesses países, a restauração assumiu formas diferentes. Na Rússia, a restauração foi caótica. A economia estatal foi entregue à pilhagem das máfias, ligadas aos Estados Unidos e Europa. Abriu-se uma enorme crise social e econômica. A economia regrediu a nível impensável. A União Soviética foi desintegrada e extinto o Partido Comunista, que se dividiu em muitas frações. Com o tempo, a economia se estabilizou e voltou a crescer com base nos enormes recursos naturais do país e nos seus altos preços.
        Não tardou a fechar-se o cerco dos Estados Unidos, que descumpriu a sua promessa a Gorbatchev de não expandir as bases da OTAN às ex-repúblicas soviéticas. A camarilha entreguista de Yeltsin foi substituída pela de Vladimir Putin, que tentou uma convivência pacífica com o imperalismo, apostando no bloco comercial Rússia/Europa. Tolerou o estreitamento do cerco da OTAN sobre o seu quintal. Avalizou o bombardeio sobre a Líbia. Em 2008, Putin pela primeira vez tentou demarcar limites à expansão dos Estados Unidos, que se assanhavam sobre a Geórgia e a Chechênia, bombardeando essas repúblicas e mantendo-as sob a sua órbita.  Em 2014, o imperialismo promoveu mais uma das suas “revoluções coloridas”, promovendo uma “insurreição popular” e derrubando o governo da Ucrânia, sob a direção de grupos fascistas. A OTAN, após instalar-se na Polônia, repúblicas bálticas, etc, agora pretende por um pé na Ucrânia, às portas de Moscou. Putin retaliou anexando a Criméia e promovendo o separatismo no leste da Ucrânia. Em resposta, a Rússia acercou-se da China, com quem assinou vultosos acordos comerciais, e criou a União Comercial Euro-asiática.
A atitude da Rússia sobre as repúblicas não russas no seu interior e nas imediações é típica de um novo imperialismo nascente. Esse fato somente foi possível pelas características especiais da Rússia (um território gigantesco com abundantes recursos naturais, como gás e petróleo) e por ser herdeira da antiga União Soviética, dona do segundo maior poderio militar do planeta, uma alta tecnologia militar, uma indústria armamentista forte e exportadora. O velho aparato do Estado burocratizado foi desmembrado, mas não desfeito completamente. O imperialismo pôs a seu serviço apenas um setor deste e parte dos novos magnatas. A Rússia nunca sucumbiu integralmente à condição de semi-colônia. A fração Putin, sob pressão imperialista, foi obrigada a reagir e não apenas defender-se.
        A restauração na China deu-se de forma diversa, sob estrito controle do Partido Comunista, sob a liderança de Deng Xiau Ping. Desfez o monopólio sobre a economia, abriu o país ao capital estrangeiro. Manteve entretanto o controle político, bem como, as grandes empresas estatais. A ditadura burocrática sobre a gigantesca mão de obra chinesa criou as condições ideais para os investimentos internacionais. A China transformou-se na grande fábrica do mundo, com base em condições de trabalho semi-escravas, que o capital não poderia impor imediatamente nas metrópoles. A China beneficiava-se dos investimentos estrangeiros, acumulava capital e tecnologia e financiava na outra ponta a dívida pública americana, investindo em títulos do tesouro. Esse fato trazia incubado muitas contradições. Os investimentos na China eram o paraíso para o capital, mas tornavam as metrópoles ainda mais parasitárias e deficitárias.

        Armou-se uma bomba relógio, expressa pela decadência americana e a ascensão chinesa.  Os Estados Unidos promoveram o cerco político e militar à China. Rodearam-na de bases militares e instigaram contra ela Japão, Coréia do Sul e Vietnã. Tentam desestabilizá-la e desmembrá-la fomentando separatismos em algumas regiões (Iugures, Hong Kong, Tibete). Recentemente fracassaram na tentativa de criação de um acordo de livre comércio Ásia-pacífico, sem a China. Esta criou o seu banco de investimentos e atraiu a ele dezenas de países, inclusive, grande parte da Europa. A sua ofensiva contra a Rússia fortaleceu a aliança russo-chinesa. A China, na condição de grande exportadora de capitais, exerce uma influência imperialista ainda difusa.

domingo, 12 de abril de 2015

O PAPEL DAS GREVES E DA GREVE GERAL

                         
        As greves têm sido uma constante desde a formação do proletariado. As greves gerais surgiram no fim do século XIX. Já os cartistas ingleses, a I Internacional e os bakuninistas (anarquistas) falaram da greve geral. Em alguns países (Argentina, Grécia, etc.) as centrais sindicais têm convocado dezenas de “greves gerais”. As greves são um método de luta importantíssimo, mas não o único, nem o principal, e não são possíveis em qualquer conjuntura. A burocracia sindical tem vulgarizado esse método, transformando-o em caminho mais curto para derrotas. Está interessada exclusivamente na sua promoção. As burocracias em geral promovem greves fora dos momentos propícios. Invariavelmente a esquerda perfila-se junto com a CUT no apoio às greves patronais, haja vista, o apoio às greves da CNTE.

Métodos adequados aos seus objetivos

         As lutas salariais visam apenas valorizar a mercadoria força de trabalho. Não abalam o capitalismo. Os socialistas as apóiam apenas como ponto de apoio da luta pela abolição do trabalho assalariado. A burocracia e a esquerda restringem as greves aos seus objetivos meramente econômicos. O socialismo se formou na luta contra esse método, que se chamou economicismo.
        O método reformista aposta no crescimento gradativo das lutas salariais, que serviriam para acumular forças e conscientizar os trabalhadores. As greves não conscientizam os trabalhadores e nem sempre servem de acúmulo de forças. Apenas as greves vitoriosas acumulariam forças. O reformismo pretende conciliar os interesses entre as classes. Não entende as greves como luta de classes, ou seja, um confronto entre a burguesia e o proletariado em que este se prepara para expropriar a primeira. Mas a burguesia as trata como luta de classes, reprimindo-as e demitindo em massa. A deflagração de uma greve exige uma análise criteriosa da situação: como estão os seus inimigos (os patrões e o governo), o ânimo geral dos trabalhadores e da categoria em questão, o seu grau de organização, o fundo de greve, o caráter das direções, a reivindicação em pauta. Isso não importa para a burocracia sindical, que não tem responsabilidade com a categoria.
         As greves operárias têm maior poder de pressão porque paralisam a produção, principalmente, em se tratando de categorias nacionais (como petroleiros, caminhoneiros, etc.) ou mesmo categorias regionais, como metalúrgicos, construção civil, obras do PAC, etc. Existem categorias, como bancários, correios, que, mesmo sendo prestadores de serviços, são também categorias nacionais. As greves de professores têm, em si, menor poder de pressão, porque ao governo a educação não importa e pode jogar a população contra a greve. A força dos trabalhadores da educação pública reside no fato de serem categorias numerosas, e pelas suas mobilizações. Estas podem ter uma grande repercussão política, se acompanhadas de uma campanha de denúncia e em grandes atos públicos.  Essa é a razão das brutais repressões policiais contra passeatas pacíficas do magistério.     
        O capitalismo está dominado por monopólios parasitários. As lutas isoladas são via de regra derrotadas. É preciso unificar as categorias, organizá-las por local de trabalho, e promover uma campanha de denúncia do capitalismo, não de forma abstrata, como fazem os doutrinários e até mesmo os reformistas, nos dias de festa. Deve-se demonstrar, com base na experiência das massas, que todos os males cotidianos decorrem do caráter retrógrado do capitalismo.
        A consciência socialista não é uma decorrência natural do movimento. A conscientização dos trabalhadores é uma tarefa da vanguarda. O movimento socialista apóia-se em todas as lutas, não apenas sindicais. É preciso promover todas as demandas populares (sindicais, dos terceirizados, que não têm sindicatos, dos camponeses, das minorias oprimidas, das mulheres, negros, gays, etc.). O reformismo aposta no crescimento paulatino das lutas econômicas. O marxismo, ao contrário, para ele somente um movimento revolucionário pode arrancar do capitalismo uma que outra conquista. A burguesia pode ceder alguma reivindicação importante quando se vê na iminência de perder tudo. E se não for derrubada, inevitavelmente, retomará com a mão direita o dobro que deu com a esquerda. Vivemos uma época de ofensiva do capital. As conquistas parciais não são impossíveis, mas estão intimamente vinculadas à luta pelo socialismo.

A greve geral

        As greves gerais desempenharam um papel muito importante na história. Atualmente, as burocracias sindicais de diversos países têm recorrido com freqüência a “greves gerais”. A esquerda tem proposto greves gerais de forma artificial. Não analisa a conjuntura, se é ou não propícia. Ao agitar essa proposta, delega a sua convocação às burocracias sindicais. As burocracias têm realizado dois tipos de “greve gerais”: 1 - nos momentos revolucionários, para esvaziar o descontentamento popular. A Grécia tem sido palco de dezenas de greves desse tipo. 2 – em momentos não revolucionários para defender ou desestabilizar governos burgueses. A Argentina é o exemplo principal. Podemos incluir nessa categoria os dias nacionais de luta.
        Em países, como a Grécia, os trabalhadores aderem a essas greves como única forma de manifestar o seu desespero diante dos planos de austeridade. Entretanto, à burocracia interessa apenas esvaziar a panela de pressão popular, e não colocar a burguesia contra a parede. São greves demonstrativas de um ou dois dias. Somente greves por tempo indeterminado, que paralisem o poder e ameacem tomá-lo, poderiam arrancar reivindicações importantes. No caso da Argentina, as burocracias sindicais (as três CGTs e a CTA) têm promovido “greves gerais” para desestabilizar o governo de Cristina Kirchner, a serviço da direita golpista. A reivindicação da greve recente (contra o imposto sobre o capital e sobre os altos salários), parcialmente justa, serviu apenas de cortina de fumaça para os interesses da direita e do imperialismo.
        Os dias de luta convocados pela CUT brasileira, (inclusive, Intersindical e CSP  Conlutas), têm tido o objetivo de apoiar ou disputar o governo. São atos de vanguarda e greves artificiais com uma pauta ambígua. Inclui aparentemente reivindicações dos trabalhadores, tais como, a luta contra o desemprego, mas os seus eixos principais são próprios de um programa burguês desenvolvimentista: contra o superávit primário, por uma nova política econômica. Supõe que o governo esteja em disputa. Mesmo a bandeira contra o desemprego, transforma-se em farsa quando se traduz por reivindicações de desoneração fiscal das indústrias, empréstimos oficiais, etc.
        Os grupos reformistas (PSTU, PSOL) e outros grupos “radicais” (doutrinários de esquerda), ao propor greves gerais, estão apoiando esse tipo de greve. Dada a correlação de forças, não é possível disputar com a CUT a direção dessas “greves”. O doutrinarismo de esquerda propõe greve geral para qualquer conjuntura. Obviamente, está delegando essa tarefa à CUT.
        Rosa Luxemburgo e Trotsky estudaram as principais greves gerais da história (Rússia, França e Inglaterra) e nos deixaram algumas lições. As greves gerais somente são possíveis em momentos revolucionários. São manifestações por excelência da luta de classes. Não são as greves gerais que levam à revolução socialista, mas a situação revolucionária é que torna possível a greve geral. Nem toda revolução deve passar por uma greve geral. Nas greves de categorias, os sindicatos assumem o papel principal. Nas greves gerais, o principal ator é o partido revolucionário, coisa que não existe hoje em nenhum lugar. A greve geral não pode ser convocada arbitrariamente, nem se pode criar as condições para ela mediante a propaganda. Propagandear a necessidade da greve geral é tão inócuo como a da revolução. Nem mesmo o maior partido proletário, nem a maior central sindical, podem realizar uma greve geral ao seu arbítrio. A greve geral é um fenômeno histórico, fruto de uma conjunção de inúmeros fatores. Fatores objetivos: econômicos, políticos, sociais, materiais; e subjetivos: o partido, os sindicatos, as organizações de base, a psicologia das massas.
        Numa conjuntura não revolucionária, o eixo da nossa política se desloca da ofensiva para a defensiva; de questões como a organização da insurreição, da greve geral, para os métodos e tarefas que os preparam: a construção do partido revolucionário, a organização de base, a autodefesa, a unificação das lutas, a propaganda do socialismo, a denúncia da burocracia, do centrismo e do governo. As propostas abstratas de greve geral são perniciosas, da mesma forma que qualquer política deslocada da realidade.



INDEPENDÊNCIA DE CLASSE CONTRA O GOVERNO E A DIREITA


        Os trabalhadores brasileiros não contam com qualquer organização política que represente os seus interesses de classe. Encontram-se politicamente espremidos entre o bloco do governo Dilma (PT, PMDB, PP, CUT, MST, UNE e afins) e o outro bloco da direita (PSDB, DEM, e o fascismo). A esquerda dita marxista (PSOL, PSTU, entre outros) e a esquerda periférica do governo (MTST, intelectuais, etc.) em nada contribuem para a independência de classe. Os dois grandes setores burgueses têm em comum a defesa dos planos de ajuste (MPs 664, 665, que retiram direitos dos desempregados e das viúvas, PL 4330, que terceiriza os serviços) e de todos os pacotes de maldades contra o povo: tarifaço, privatizações, cortes dos direitos trabalhistas, previdenciários, nos salários dos aposentados, na saúde, educação, e contra a Petrobrás.
        Esse programa comum entre governo e oposição não impede que o PSDB, aliado ao fascismo, lidere uma virulenta campanha contra o primeiro. Percebe a possibilidade de chegar ao poder em 2018 (que lhe escapou entre os dedos em 2014) ou mesmo antes, através de impeachment. Parece que a sua estratégia é desgastar o governo até as eleições de 2018, embora as circunstâncias possam abreviar esses prazos, favorecendo o impeachment e até um improvável golpe. A ofensiva dessa direita tem dois pólos: de um lado a Operação Lava Jato e seus vazamentos seletivos, amplificados pela imprensa, exclusivamente, contra o PT; de outro, uma campanha nas redes sociais, visando a desmoralização do PT, orquestrada pela direita, envolvendo ONGs patrocinadas pelo imperialismo, a exemplo das conhecidas “revoluções coloridas”. O fato de o PT liderar o governo, o torna aos olhos das massas o principal responsável pela corrupção, do que se aproveita essa direita, que não está interessada na moralização do Estado, já que é tão corrupta quanto ele.
        Encurralado, o PT optou por assumir integralmente o programa de ajuste do grande capital, como estratégia para “combater” o golpe, ou seja, torná-lo desnecessário. Desmoraliza-se ainda mais diante das massas e afasta alguns dos seus aliados. Essa política é sedutora para a oposição. Ao aplicar os planos de ajuste da direita, o governo presta-lhe um grande serviço assumindo para si o trabalho sujo que seria o seu. Entregaria-lhe o governo devidamente “saneado” em 2018. Entretanto, existe também outro lado. As lutas podem passar por cima da retranca do governo e dos pelegos da CUT, CTB, etc., tornando inócua a tentativa do PT de segurar os movimentos sociais, sua especialidade. Nesse caso, as lutas somente poderiam ser contidas pela repressão, que é uma vocação da direita. Essa seria a conjuntura mais propícia para o impeachment.

As manifestações, os planos de arrocho e o impeachment

        Essa campanha sistemática da direita desembocou em grandes mobilizações de massa, pela primeira vez após décadas, levando para a rua em maior número a média burguesia e profissionais liberais, mas também uma expressiva minoria da pequena burguesia e assalariados. A média burguesia, embora também atingida pela crise, foi para a rua movida pelo ódio ao PT e tudo o que ele para ela representa simbolicamente e que potencialmente poderia levar ao comunismo, principalmente, os programas sociais. Alimenta um medo doentio, instigada pela grande burguesia, a esse fantasioso comunismo representado pelo PT. Mobiliza-se preventivamente. O seu combate à corrupção é uma farsa restrita ao PT. É como se este cometesse a heresia de querer participar do banquete reservado da corrupção burguesa. Esse setor social não tem programa, serve apenas de marionete da grande burguesia, que está por trás dele.  É atingido pela política do capital monopolista, mas se submete a ele supondo ser a grande burguesia a guardiã da sua sobrevivência enquanto classe. É vítima da crise capitalista, mas volta-se contra os trabalhadores. Não é capaz de opor a mínima resistência à entrega da economia nacional ao imperialismo.
        Os pequenos burgueses e assalariados presentes nas manifestações, foram movidos por interesses legítimos: os ajustes, tarifaços, cortes sociais, inflação. Entretanto, também não apresentaram as suas reivindicações próprias, apenas engrossaram o coro da burguesia e assumiram o seu conteúdo. Esses atos foram dominados integralmente pelas bandeiras da direita e do fascismo. Nenhuma reivindicação progressista foi levantada. Não foram mobilizações legítimas dirigidas pela reação, como caracteriza parte da esquerda, atribuindo-lhes algum caráter progressista. Não. Tratou-se de mobilizações reacionárias.
        Os atos convocados pelo governismo (CUT, MST, UNE, etc.) se caracterizaram por serem de apoio ao governo, mesmo que alegassem defender os direitos trabalhistas, a Petrobrás e combater a corrupção. Não se pode combater os “ajustes” liberais defendendo o governo que os patrocina. Não se pode combater a corrupção e defender a Petrobrás, eximindo o governo de responsabilidade em relação a elas. Somente os trabalhadores têm interesses no combate à corrupção e devem denunciar a corrupção do conjunto da burguesia, quer seja do PT ou PSDB. A CUT, se não fosse governista, teria condições de realizar uma investigação independente, retirando da burguesia essa bandeira. Prefere lavar a cara do PT. Quando a CUT fala “nenhum direito a menos”, não se deve entender que esteja contra os planos de ajuste. Não moverá um dedo contra eles. Aposta na negociação com o congresso, apenas para “dourar a pílula” desses planos. Essa central pelega é irrecuperável. Por isso, o PSTU vende ilusão quando exige que a CUT e o MST rompam com o governo.
          Algumas organizações de esquerda, como o PCO, entre outros, chamaram a participação nesses atos governistas em nome da unidade contra o golpe. Não se combate o golpe defendendo o governo, porque a sua defesa reforça a bandeira da direita de campeã da moralidade pública. Somente com uma denúncia contundente do governo, da sua corrupção, dos seus pacotes de ajuste, podemos disputar à direita a consciência das massas. Essa é a única política coerente contra um possível golpe ou impeachment. A luta contra este não é uma declaração vazia de intenções, mas uma disputa política contra a direita pela influência sobre as massas. Não se faz isso apoiando o governo.
 A Frente Única é uma ação prática de massas em torno de um objetivo preciso. Os atos convocados pela CUT não são contra um possível golpe de direita, são de apoio ao governo. Apoiar o governo não se confunde com a luta contra o golpe. O governo procura evitar o impeachment implementando os planos do capital, e a CUT está alinhada com essa política, mesmo que disfarçadamente.  A frente com a CUT neste momento significa apoio ao governo e aos seus pacotes. Essa Frente Única somente se justificaria no caso em que a mesma estivesse efetivamente levando uma luta progressista e não de aparência. Não é o caso da pretensa luta contra o golpe. A CUT é um braço inseparável do PT. A nossa política em relação a ela deve ser de denúncia implacável do seu caráter burguês, ao invés de participar dos seus atos governistas ou exigir que rompa com o governo.
        Também não se pode combater a corrupção através de investigações do congresso em unidade com os partidos de direita, como faz o PSOL. Esses partidos abstratamente podem comprometer-se em investigar todos os envolvidos na corrupção da Petrobrás. Na prática, isso somente valerá para o PT. Não se pode dar esse crédito de confiança a eles, sabidamente demagogos e corruptos. Nenhuma ilusão nos partidos patronais. Devemos denunciá-los sumariamente, baseados na sua história, ao invés de fazer frente parlamentar com eles.
        Entendemos que o impeachment ou o golpe é uma possibilidade que não está colocada para o momento imediato. Mesmo assim, nos colocamos contra o movimento golpista e desestabilizador do governo, promovido pelo PSDB e o fascismo. O impeachment, para nós, também é uma forma de golpe e não apenas uma alternativa constitucional, como diz o PSTU, para quem seria trocar seis por meia dúzia. Não. Seria um golpe porque é um casuísmo contra o PT. E seria também um golpe porque se voltaria principalmente contra os trabalhadores e suas organizações. É o movimento dos trabalhadores que a direita odeia e quer destruir. Para ela, nós somos o inimigo e não o PT. O seu ódio ao PT é apenas uma manifestação distorcida da sua ojeriza ao movimento independente do proletariado.




  

quinta-feira, 12 de março de 2015

COMBATER O ‘AJUSTE’ DE DILMA E DA DIREITA

 Está em curso um ataque aos trabalhadores: aos direitos trabalhistas, previdenciários, à saúde, educação, um tarifaço, privatizações, principalmente, contra a Petrobrás. É um ataque conjunto do governo e da oposição burguesa, a mando do imperialismo. A campanha da oposição de direita pelo impeachment é uma forma de encurralar o governo, para que ele mesmo implemente esses planos de arrocho, como, efetivamente, está fazendo. É também uma forma de servir aos interesses dos Estados Unidos, que disputa espaço aos BRICs, do qual o Brasil faz parte. Dilma criticou o liberalismo de Aécio e, uma vez eleita, nomeou um ministério liberal, que bem poderia ser o seu. O golpe (seja impeachment ou golpe militar) é uma possibilidade, a depender de um maior desgaste do governo. A campanha da direita está galvanizando a classe média e parte dos trabalhadores. O governo facilita a tarefa do golpismo ao implementar o seu programa, pretendendo tornar o golpe desnecessário. Isso é perigoso. Neste momento, desenha-se um acordão em torno da Operação Lava Jato. Entretanto, o aprofundamento do desgaste pode tornar viável o impeachment.
        O golpismo convoca os atos do dia 15.03 e desencadeia uma ampla campanha de desmoralização do governo. O governismo (CUT, CTB, UNE, MST, etc.) sai também à rua, em defesa de Dilma, convocando os atos do dia 13.03 com uma pauta contraditória: - reforma política; - assembléia constituinte; - nenhum direito a menos; - contra a corrupção; - contra a política recessiva. Como é possível reivindicar “nenhum direito a menos” sem combater o governo, que está retirando direitos no atacado? Como é possível combater a política recessiva com o banqueiro Joaquim Levy no Ministério da Fazenda? Ou pedir uma reforma política democrática, quando o governo está apoiando a contrarreforma política da direita? Isso é demagogia barata de pelegos governistas que procuram encobrir seu apoio ao programa da burguesia contra o povo. Parte da esquerda chama a participação nesses atos da burocracia, em nome de uma suposta unidade contra o golpe. Não se pode combater o golpismo apoiando o governo.
        A Conlutas lidera outra frente que chama os atos do dia 12.03, na perspectiva da criação de uma alternativa aos dois blocos burgueses, entendendo que o governo não está em disputa, com o que concordamos. Entendemos que os trabalhadores devem levar uma luta defensiva, tendo como eixo o combate aos planos de arrocho (MPs 664 e 665); contra os aumentos de tarifas; contra a privatização da Petrobrás e contra o movimento pró-impeachment. O impeachment significaria uma maior ofensiva contra os trabalhadores, não porque Dilma seja melhor que Temer ou Aécio. Combatemos o movimento pró-impeachment do ponto de vista da independência de classe, sem qualquer apoio ao governo.
        Essa luta, para ser consequente, requer a denúncia implacável da CUT, CTB, MST, UNE, como coniventes com esses ataques e a corrupção. A sua denúncia da corrupção é uma farsa, na medida em que levam livre o governo e não fazem uma investigação independente, como teriam condições de fazer. Não cabem exigências à CUT e ao MST para que rompam com o governo. Isso é uma versão indireta da tese do governo em disputa. No caso, a CUT em disputa. Também não é correto levantar a bandeira de uma reforma política, porque essa é a palavra de ordem com a qual o governismo tenta encobrir as suas traições e não existem as mínimas condições para uma reforma democrática. Devemos, sim, desmascarar a contrarreforma política em andamento.
        Essa luta de resistência deve opor-se aos ataques da burguesia, denunciar o peleguismo atual, visando à criação de sindicatos independentes e de um partido revolucionário. Somente assim o proletariado poderá colocar na ordem do dia os seus objetivos maiores: a estatização integral da Petrobrás, que deve coincidir com a expropriação do grande capital e a inauguração do socialismo.