domingo, 5 de outubro de 2014

CADERNO DE FORMAÇÃO Nº 1 – OUTUBRO DE 2014

A QUESTÃO DO PARTIDO
Vivemos um momento de profundo questionamento sobre a viabilidade do socialismo e, como consequência, da construção de um partido revolucionário. Dizer que todos os partidos anteriores fracassaram e isso seria uma lei da história, é uma meia verdade. Esse determinismo desconhece que os partidos proletários não são um fim em si mesmo, mas um instrumento da luta de classes. O seu destino depende dessa luta. Os grandes partidos mundiais do proletariado, a Primeira, a Segunda e a Terceira internacionais, antes de sucumbirem, cumpriram os seus papéis. A história demonstrou que nenhum partido revolucionário sobrevive às grandes derrotas. A Primeira Internacional não sobreviveu à derrota da Comuna de Paris, a Segunda, ao longo período de parlamentarismo e crescimento capitalista, e a Terceira, à derrota da revolução na Europa, principalmente na Alemanha (1919, 1921, 1923).
A história demonstra que nenhuma luta do proletariado jamais se elevou acima das tarefas imediatas sem um partido revolucionário. Todos os melhores momentos dessa luta teve um partido em sua direção. As incontáveis derrotas explicam-se pela sua ausência ou pela traição das direções existentes.
Afirmar que o socialismo faliu é uma inverdade, porque nunca existiu socialismo. Existiram estados operários burocratizados, que voltaram paulatinamente ao capitalismo. Este, sim, é que faliu e está levando a humanidade para a barbárie: bilhões de seres humanos vivendo na mais absoluta degradação: miséria, desemprego e guerras de rapina. Somente o socialismo pode tirar a humanidade desse atoleiro.  As derrotas do proletariado não duram para sempre. As futuras vitórias serão impossíveis sem a construção de um partido revolucionário.  Assim como foram possíveis os partidos anteriores, as condições objetivas atuais os tornam ainda mais prováveis. Não existe perspectiva sem ele. Criá-lo é a tarefa primeira, segunda e terceira de todo trabalhador consciente.



MAS QUEM É O PARTIDO?

Mas quem é o partido?
Ele fica sentado em uma casa com telefones?
Seus pensamentos são secretos,
Suas decisões desconhecidas?
Quem é ele?

Nós somos ele!
Você, eu, vocês – nós todos.
Ele veste sua roupa, camarada, e pensa com a sua cabeça.
Onde moro é a casa dele, e quando você é atacado ele luta.

Mostre-nos o caminho que devemos seguir, e nós o seguiremos, como você, mas não siga sem nós o caminho correto.
Ele é, sem nós, o mais errado!
Não se afaste de nós!
Podemos errar, e você pode ter razão, portanto, não se afaste de nós!

Que o caminho mais curto é melhor que o longo, ninguém nega.
Mas quando alguém o conhece e não é capaz de mostrá-lo a nós, de que nos ser a sua sabedoria?
Seja sábio conosco!
Não se afaste de nós!

Bertold Brecht



BREVE HISTÓRIA DOS PARTIDOS PROLETÁRIOS
          
  Existe um preconceito contra partidos, alimentado, inclusive, por parte da esquerda, que fala da suposta independência dos sindicatos dos partidos em geral. Essa independência é uma necessidade apenas em relação aos partidos burgueses (PMDB, PSDB, PT, PDT, PP etc.), e aos partidos proletários traidores. Esse preconceito é extremamente nefasto quando se trata da construção de um partido revolucionário. A suposta independência dos sindicatos em relação aos partidos é uma ilusão reacionária. Nunca houve e nunca haverá tal independência: ou os sindicatos estão sob a influência dos partidos burgueses ou dos partidos proletários.
                A burguesia sempre tentou impedir que os sindicatos se ocupassem de política, da organização da sociedade, ou seja, da questão do poder. Quando muito, lhes seria facultado ocupar-se das reivindicações imediatas, enquanto a política ficaria a cargo da burguesia. A prédica do apoliticismo para os trabalhadores é um discurso próprio da burocracia sindical (secundado pelo anarquismo e por certos “marxistas”), mas ela mesma domina os sindicatos a serviço da política burguesa. O preconceito apoliticista, além de nefasto, reflete uma ignorância histórica. Em alguns países os sindicatos foram criados pelos partidos operários e noutros esses partidos foram criados pelos sindicatos.
                O movimento sindical surgiu na Inglaterra no século dezenove, na luta pela melhoria das condições degradantes de trabalho, e obteve muitas conquistas: a redução da jornada de trabalho, a proibição do trabalho das crianças, do trabalho noturno das mulheres, e tantas outras. Se não houvesse essas lutas, hoje ainda estaríamos naquelas condições. Atualmente, a restauração capitalista na China, entre outros países, fez retroceder as condições de trabalho ao século dezenove. Isso desencadeou um processo de retirada de direitos históricos conquistados em todos os países, através dos famosos planos de ajuste. Portanto, essas conquistas somente poderão ser preservadas pela luta. Sempre estarão sob ameaça enquanto houver capitalismo. Não foram apenas os sindicatos os instrumentos dessas vitórias, mas a sua unidade com o movimento político do proletariado.
                A Inglaterra foi sacudida pelo Movimento Cartista (1838 a 1848), que lutava pela Carta do Povo e pelo voto secreto. Em 1847, conquistou a aprovação de uma lei que limitava a 10 horas diárias a jornada de trabalho. Em 1824, já havia sido conquistada a legalidade dos sindicatos. Inglaterra, França e Alemanha, nas décadas de 30 e 40 do século XIX, foram palco de movimentos revolucionários. Marx e Engels antes de conhecerem-se em Paris, em 1844, desenvolveram, cada um por si, os princípios gerais de uma nova teoria da história, o materialismo histórico: a economia é a força motriz da história, sobre a qual surgem as ideias e os antagonismos de classe. Apenas em determinado grau de desenvolvimento das forças produtivas materiais podem surgir as doutrinas e a organização do proletariado.
                Londres, Paris e Bruxelas estavam cheias de emigrados políticos.  Marx e Engels mantinham estreito contato com os movimentos revolucionários europeus: cartistas ingleses, franceses (adeptos de Babeuf e de Blanqui) e alemães (da Liga dos Justos). Aos poucos, convenceram os principais dirigentes dessa liga da correção da sua nova doutrina e foram convidados a nela ingressarem. Realizou-se, então, um congresso em Londres, no verão de 1847, onde foi fundada a Liga dos Comunistas, que os encarregou de redigir o seu programa, o que veio a ser o Manifesto do Partido Comunista, que até hoje serve de guia para o proletariado internacional, com o seu lema: “Proletários de todos os países, uni-vos”. A Liga Comunista acabou liquidada pela repressão burguesa.
                Marx e Engels continuaram a sua luta pela organização do proletariado e em 28 de setembro de 1864 fundaram, em Londres, a Associação Internacional dos Trabalhadores ou Primeira Internacional, reunindo a vanguarda do proletariado europeu, inclusive, adeptos de Miguel Bakunin, um dos principais criadores do anarquismo. Bakunin fundou, no interior da internacional, a Aliança da Democracia Socialista, que foi expulsa no Congresso de Haia, em 1872. A I Internacional cumpriu o seu papel de apoio a todos os movimentos operários, mas sucumbiu à derrota da Comuna de Paris, de 1871.
                Em 1889, foi fundada a II Internacional, reunindo os partidos socialdemocratas europeus, sendo o principal deles o alemão. A socialdemocracia construiu uma ampla organização sindical e teve grande participação parlamentar. Mas, ao mesmo tempo em que conquistou muitos direitos sociais (férias, 13º salário, etc.) transformou o sindicalismo e parlamentarismo, daquilo que deveria ser apenas um meio para a revolução social, num fim em si mesmo, adaptando-se ao capitalismo. Como expressão dessa adaptação, surgiu uma corrente revisionista dos princípios do marxismo, liderada por Eduardo Berstein, que questionava a luta de classes e o poder do proletariado. Embora Berstein tenha sido derrotado, a socialdemocracia acabou adaptando-se à democracia burguesa. Ao troar os canhões da Primeira Guerra Mundial, os partidos socialdemocratas europeus apoiaram a guerra imperialista e os seus respectivos países, rompendo com o internacionalismo proletário e se passando de armas e bagagem para o campo da burguesia.
                Poucos grupos e partidos salvaram-se dessa grande traição. O principal deles foi o Partido Bolchevique russo, que acabou, em 1917, encabeçando a Revolução Russa, conhecida como Revolução de Outubro. Com base nessa vitória, fundou-se, em 1919, a III Internacional, reunindo os partidos comunistas europeus. Após a revolução, a Rússia, o país mais atrasado da Europa, foi devastado pela I Guerra Mundial e pela guerra civil. Seguiu-se a isso o seu isolamento com a derrota da revolução em outros países, principalmente, na Alemanha. Como resultado dessas derrotas, subiu ao poder na então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas uma casta de arrivistas, dirigida pelo secretário geral do Partido Comunista, José Stálin. O estalinismo cultuou a figura de Lênin para melhor trair os seus princípios: - o internacionalismo foi substituído pela teoria do “socialismo em um só país”; a independência de classe, pela participação nas frentes populares; a democracia proletária, pela ditadura da casta parasitária sobre o proletariado. Desde então, o regime estalinista sofreu um longo processo de degeneração, terminando por restaurar ele mesmo o capitalismo.
                A burocratização do Estado soviético deu-se aceleradamente. No fim de 1922, Lênin, já enfermo, propunha a Trotsky o combate à burocracia. Em quatro de janeiro de 1923, ditou às suas secretárias o seu “testamento” político, no qual propunha a destituição de Stálin da Secretaria Geral. Em 15/10/1923, 46 dirigentes do partido bolchevique publicaram um manifesto criticando a burocratização e exigindo a restauração da democracia soviética e recebendo a solidariedade de Trotsky. Isso deu origem à Oposição de Esquerda. Já era tarde demais. Stálin já tinha o controle do Estado. Esmagou a oposição e terminou assassinando os seus dirigentes e dezenas de milhares de bolcheviques.
                A Oposição de Esquerda conquistou adeptos e formou seções em dezenas de países, vindo a formar, em 1938, a IV Internacional. Com a morte de Trotsky, A IV Internacional também degenerou e dividiu-se na década de 50, quando o setor majoritário, dirigido por Michel Pablo, capitulou ao estalinismo. Entretanto, mesmo não conseguindo se firmar como partido mundial do proletariado, a IV Internacional nos legou conquistas políticas e teóricas fundamentais, a saber: - o Programa de Transição, de inteira atualidade; - o combate à participação em Frentes Populares e à teoria estalinista de “socialismo em um só país”; - a melhor análise da degeneração da Revolução Russa, principalmente, exposta no livre de Trotsky A Revolução Traída; - uma política de princípio para a Segunda Guerra mundial, através do Manifesto da IV Internacional sobre a Guerra Imperialista e a Revolução Proletária: o defensismo em relação ao Estado soviético e o derrotismo em relação aos dois blocos imperialistas.
                Finalmente, na década de 80 e 90, a restauração capitalista nesses estados, mesmo burocratizados, representou uma profunda derrota do proletariado. Sobreveio uma brutal ofensiva ideológica, política, econômica e militar do imperialismo. O ideal socialista foi declarado extinto. Os trabalhadores perderam a esperança no socialismo. Alguns grupos “trotskistas” saudaram essa restauração capitalista como “a mais formidável vitória do proletariado”. Tomaram a derrota como vitória e aplaudiram o ascenso da democracia burguesa nesses países. 
                Não nos resta alternativa que não seja a barbárie capitalista. A restauração do capitalismo não deixou pedra sobre pedra das principais organizações proletárias. Passada a tormenta, novos ventos frescos começam a soprar. É preciso reconstruir o edifício da independência de classe, resgatar a teoria marxista e construir o partido revolucionário. A isso se propõe Luta Marxista, ombro a ombro com todos os trabalhadores conscientes e honestos. 


O VENDAVAL OPORTUNISTA
          Um vendaval oportunista atinge as organizações atuais do proletariado. O estalinismo transformou a sua maior vitória, a Revolução Russa, na maior derrota, restaurando o capitalismo, como já havia traído as revoluções do século XX. A maioria dos partidos estalinistas abandonou qualquer referência no marxismo, virando partidos burgueses (vide PPS). Outros mantêm apenas o rótulo marxista por cima da pele de lobo burguês, como o PC do B. O PCB, antigo “partidão”, virou um partidinho que tenta apresentar-se como revolucionário, mas não abandonou o antigo vício oportunista.  No Brasil, o PT transformou-se num agente do imperialismo executando as suas reformas liberais. Os “trotskistas” sucumbiram também aos encantos da burguesia.
                Essa crise de direção atual não aconteceu por acaso, mas pela derrota que representou a restauração do capitalismo no leste europeu e na China e a degeneração do próprio capitalismo. O desemprego estrutural coloca limites estreitos à luta econômica e os sindicatos transformam-se em instituições do Estado. A classe operária industrial diminuiu em muitos países. Tanto a degeneração capitalista como as derrotas não aplastaram o proletariado. Este diminuiu em alguns países, mas aumentou nos novos parques industriais (China, Índia, Vietnã, etc.) e surgiram, ao mesmo tempo, novas categorias assalariadas (Cals Centers, etc.). Apesar das derrotas, esse novo proletariado começa a levantar a cabeça. O seu exemplo levantará novamente o proletariado mundial, cujas conquistas históricas estão sendo extintas. O oportunismo reflete o peso dessas derrotas e a descrença nas lutas. Não vemos razões para pessimismo. O proletariado tem protagonizado inúmeras lutas, mostra que está vivo. As condições adversas não durarão para sempre. O seu despertar é inevitável.  
           
O oportunismo “trotskista”
            O vendaval oportunista entre os pseudotrotskistas se transformou em epidemia após a restauração do capitalismo nos estados ditos “socialistas”. Michel Pablo já havia levado a maioria da IV Internacional à capitulação ao estalinismo, em 1952. O seu discípulo, Ernest Mandel, continuou a sua obra liquidacionista comando o Secretariado Unificado. Hoje, a sua corrente no Brasil, a Democracia Socialista (DS), virou um braço burguês do PT, abandonando qualquer relação com o marxismo.
                O pior inimigo é o disfarçado, os que ainda se dizem trotskistas: os discípulos de Pierre Lambert, Nahuel Moreno, Guilhermo Lora, Jorge Altamira e seus equivalentes europeus e norte-americanos. Pierre Lambert, que se opôs ao pablismo, acabou capitulando à Frente Popular de François Mitterrand, na década de 80. No nosso país, a sua corrente, O Trabalho, está adaptada ao PT. Lambert requentou de forma oportunista a palavra de ordem de Assembleia Constituinte e de Frente Única Anti-imperialista (FUA), e fez escola entre o “trotskismo” sul-americano. Guilhermo Lora, dirigente do POR boliviano, transformou essas palavras de ordem no carro chefe da sua política. Traiu todas as revoluções bolivianas (1952, 1970/71, 1985). Outras correntes também aderiram a essa moda: o Partido Obrero argentino (PO), o PTS argentino (LER no Brasil), entre outros menos cotados. A crise insurrecional argentina de 2001 foi canalizada para a democracia burguesa por essas correntes através da palavra de ordem de Assembleia Constituinte.
                Nahuel Moreno (LIT-PSTU) tem uma longa “ficha corrida” de desvios oportunistas. É autor de uma teoria revisionista: - criou uma versão da revolução por etapas, aparentada com o estalinismo: antes da revolução socialista existiria uma revolução democrática, que já seria objetivamente socialista. Esse objetivismo significa que a revolução democrática se transformaria espontaneamente, sem necessidade de insurreição, em socialista, como se a burguesia pudesse ceder o poder ao proletariado pacificamente. Em 1982, caracterizou a subida ao poder na Argentina do general Reinaldo Bignone (o mesmo que foi a pouco condenado à prisão perpétua por crimes de lesa-humanidade) como uma “revolução democrática triunfante”. Admite, inclusive, Frente Única com o imperialismo. Assim, o morenismo (LIT/PSTU, CST, LER, etc.) apoiou os bombardeios da OTAN na Líbia e a intervenção imperialista na Síria e na Ucrânia; - segundo essa teoria, a revolução democrática dispensaria a existência de um partido revolucionário; - Moreno também criou uma teoria oportunista de Frente Única: existiriam, segundo ele, dois tipos de frentes, unidade na ação e Frente Única propriamente dita. Esta última permitiria a unidade programática com a burocracia e a participação em Frentes Populares.
                  Para o marxismo, não existe essa separação. Frente Única é sinônimo de unidade na ação. Qualquer programa comum com os inimigos de classe é uma traição, como também o é a participação em frentes populares. O PSTU participa de frentes populares de esquerda com o PSOL e apoiou a Frente Popular do PT. A CSP-Conlutas, dirigida pelo PSTU, tem uma política de unidade permanente com a CUT. Moreno também criou uma tática oportunista chamada de exigências e denúncias, que serve para pressionar partidos e governos burgueses ou burocráticos a fazerem aquilo que não é da sua natureza, inclusive, tomar o poder em nome dos trabalhadores.
                Diversas correntes do PSOL (CST, MES) têm a mesma origem morenista e padecem do mesmo mal. As demais correntes do PSOL ainda estão mais à direita. O seu senador, Randolfo Rodrigues, é um aliado de José Sarney. O PSOL é uma frente eleitoral a serviço da burguesia, por quem é financiado.


O Programa e o Método oportunista
            A grande família oportunista tem mais semelhanças entre si do que diferenças: o seu objetivo comum é a manutenção do capitalismo através da revolução democrática e do parlamentarismo. Fala de socialismo apenas nos dias de festa. Opõem-se à propaganda do socialismo com a alegação de que as massas não a entenderiam e chamam de ultraesquerdistas quem o faz. O marxismo não faz propaganda abstrata do socialismo, o seu método é concreto: utiliza os fatos da realidade para mostrar o caráter retrógrado do capitalismo. A nossa tarefa não é adaptar-nos ao nível de consciência das massas, mas elevá-lo. As lutas econômicas são apenas o ponto de partida para a propaganda socialista: conscientizar pela propaganda concreta, explicar pela teoria a realidade. Ao não cumprir com essa tarefa a esquerda abdica do seu papel. 
       Além do parlamentarismo burguês, o outro método preferido dos pseudotrotskistas é o economicismo. Não vão além das lutas por melhores salários e condições de trabalho. Lênin combateu o economicismo da sua época, que hoje se vinga dominando a política da esquerda. O economicismo alimenta a ilusão de que as lutas sindicais possam transformar-se espontaneamente na luta pelo socialismo. O método marxista é inverso: somente na luta pelo socialismo podemos arrancar à burguesia uma ou outra conquista, porque a mesma somente cede alguma coisa na iminência de perder tudo. Se não temos condições de empreender a luta direta pelo poder, a nossa política se desloca para as tarefas que visem criar essas condições, que não se resumem às lutas econômicas, mas implicam a denúncia do capitalismo, a organização de base e a autodefesa.
 O morenismo (PSTU, CST, MES, etc.) considera que a queda de uma ditadura seria uma revolução democrática, mesmo que dirigida pela burguesia ou até pelo imperialismo. Chamou de revolução democrática a queda de Mubarak (Egito), Ben Ali (Tunísia), Kadafi (Líbia), e a possível queda de Al Assad (Síria). A restauração capitalista na antiga URSS foi chamada de “revolução política”. Na crise argentina de 2001, a bandeira de Assembleia Constituinte foi o canal para a democracia burguesa. Na Bolívia, Guilhermo Lora desviou as revoluções proletárias com a palavra de ordem de Frente Única Anti-imperialista. É fácil identificar o oportunismo através das suas receitas políticas preferidas: revolução democrática, governo operário e camponês, Assembleia Constituinte, Frente Única Anti-imperialista.
                O oportunismo inclui alguns anarquistas. Existe um setor (no caso, a FAG) que é um apêndice do governo, sempre aliado à CUT e ao MST. Existem outros setores que despontaram no movimento da juventude e apoiaram os métodos vanguardistas de atentar contra os “símbolos da burguesia”, provocando o seu esvaziamento. Não somos pacifistas. Defendemos a autodefesa, mas como uma delegação das mobilizações. Criticamos as atitudes isoladas por fora do movimento real. 
                O lado inverso do oportunismo é o doutrinarismo.  Faz uma propaganda abstrata do socialismo. Faz também uma propaganda abstrata da greve geral. Com facilidade, também propõe: “abaixo este ou aquele governo”, mesmo que isso não corresponda à correlação de forças. À correta defesa das nações agredidas pelo imperialismo, sempre inclui a abstrata palavra de ordem: pela frente única militar com Kadafi, Assad, etc. O doutrinarismo facilmente se transforma em oportunismo.


 O QUE É UM PARTIDO REVOLUCIONÁRIO?
           Queremos definir as características gerais de um partido revolucionário (que não existe e deve ser construído), sem o qual o movimento dos trabalhadores estará sempre fadado ao fracasso. O seu objetivo deve ser a conquista do poder pelo proletariado à burguesia dominante, através de uma revolução proletária. Não existe solução para os problemas sociais dentro do capitalismo. A humanidade está diante da alternativa: socialismo ou barbárie.


Classe em si e classe para si           
A revolução socialista será feita pelo proletariado, a classe dos assalariados (numerosa, concentrada e com capacidade de organização) e não pelo partido. O proletariado não é homogêneo. Existem diversos graus de consciência. O domínio ideológico da burguesia o mantém fragmentado e alienado, através dos partidos burgueses, das igrejas, das universidades, dos burocratas, etc. No capitalismo, a ideologia dominante é aquela da classe dominante. O proletariado não chega espontaneamente à consciência da necessidade do socialismo. As suas lutas econômicas não levam à derrubada do capitalismo. O sindicalismo é uma luta mercantil pela valorização da força de trabalho. Os marxistas tomam as lutas imediatas apenas como ponto de partida da luta pelo socialismo. Partem da consciência elementar dos trabalhadores para elevá-la. Os ajudam a compreender, a partir da sua situação concreta, que o capitalismo é o responsável por todas as suas misérias, que precisa ser derrubado.
                O partido revolucionário faz a vinculação entre as lutas imediatas e a luta pelo socialismo. É parte do proletariado, a sua parte mais consciente, aquela que compreende a necessidade de por fim ao capitalismo. Representa as suas necessidades históricas.  A sua existência, posta a serviço do proletariado, o transforma de classe em si, em classe para si. Essa consciência não é algo evidente, demanda um estudo da história e da economia capitalista. Esse estudo foi feito por Marx, expresso na sua teoria da história, o Materialismo Histórico, uma ciência social.
                Para os economicistas, as lutas econômicas se bastariam a si mesmas, não fazem a sua vinculação com o socialismo. O economicismo é a política burguesa do proletariado. Esse desvio oportunista é muito antigo, mas hoje domina a política de todos os principais grupos ditos marxistas. Para eles, a luta por melhores salários se transformaria espontaneamente em luta pelo socialismo. O método marxista é inverso: na luta pelo socialismo podemos arrancar à burguesia uma ou outra conquista, que somente cede alguma reivindicação importante quando se vê na iminência de perder tudo. Os marxistas não fazem propaganda abstrata, partem da sua experiência diária para elevar o seu nível de consciência.  Os doutrinários pregam os princípios gerais do socialismo e praticam o sindicalismo vulgar.

O partido não representa automaticamente o proletariado. Precisa ganhar a sua confiança. É o oposto dos partidos autoritários que dão ordens aos trabalhadores (estalinistas, “trotskistas”, entre outros). O partido revolucionário não dá ordens, houve, consulta, analisa e faz as suas propostas democraticamente. Uma de suas tarefas é a conscientização por meio da propaganda e da agitação. Põe-se à frente de todas as reivindicações do povo, por mínimas que sejam.

Método de construção do Partido Revolucionário           
O partido se constrói pela seleção dos elementos mais conscientes e combativos. Não tem interesses diferentes do proletariado. É parte dele. Apenas se diferencia do conjunto da classe porque organiza à parte os trabalhadores mais conscientes. Representa os interesses gerais do proletariado. Luta contra as divisões e a concorrência entre trabalhadores. É inimigo do corporativismo. Procura unificar toda a classe proletária contra os capitalistas, porque estes também estão unificados. O partido é a garantia da independência de classe. A distinção orgânica entre partido e classe é fundamental para o partido manter a sua clareza de princípios contra as influências dos setores mais atrasados da sua própria classe e da burguesia. Em todos os outros sentidos, o partido não se distingue do proletariado, mantém uma vinculação estreita com ele.

                O partido somente pode manter o seu caráter democrático, enquanto estiver sob a influência de um movimento revolucionário. Sem essa condição todos os partidos revolucionários degeneram. A falência histórica dos partidos proletários foi consequência das suas derrotas. O partido deve ser necessariamente internacional, porque as duas classes fundamentais, antagônicas entre si, burguesias e proletariado, também são internacionais. Os interesses principais do proletariado mundial são os mesmos. O capitalismo de livre concorrência não existe mais. O mundo é dominado hoje pelos monopólios, o que se chama imperialismo e que é o inimigo principal dos povos.

Princípios de organização           
O partido deve ser uma organização de combate, unificada e centralizada, não um clube de discussão. As discussões e a teoria são fundamentais, mas entendidas como instrumentos de combate ao capitalismo. O partido unifica a teoria com a prática. Rege-se pelo princípio do centralismo democrático: inteira liberdade de discussão e absoluta unidade na ação. A burguesia age contra o proletariado como um bloco coeso. Somente pode ser vencida pela correspondente unidade dos trabalhadores. É por isso que, na luta de classes, o partido deve atuar unido e procurar a unidade também da própria classe. É impossível vencer de outra maneira. As divergências internas devem ser amplamente debatidas antes da ação. Esgotada a discussão, decide-se por maioria a política a adotar, que é obrigatória para todos. É o mesmo princípio usado numa greve de categoria. As decisões da assembleia geral são válidas para todos, mesmo para quem discorda. Não se admite fura-greves.
O centralismo democrático deve ser uma síntese, uma fusão da centralização e da democracia. Uma centralização formal representa o poder de uma burocracia. Somente uma política correta, pode viabilizar o centralismo democrático. Uma política incorreta é fonte permanente de burocratização. A disciplina revolucionária em nada se assemelha à obediência cega, a falta de iniciativa individual ou ausência de espírito crítico. A primeira virtude de um militante revolucionário é criticar os seus dirigentes, quando necessário. A crítica e a autocrítica são indispensáveis. 
A vontade coletiva se expressa através dos organismos do partido: por dentro dos organismos tudo, por fora deles, nada. Os organismos devem ser grupos de trabalho, equipes de intervenção nas mais variadas frentes. Cada militante deve estar vinculado a uma equipe, que deve corresponder à especialização do seu trabalho. Existem militantes mais vocacionados a uma ou outra atividade. O partido deverá adequar o militante à melhor função a que se adapte, dentro das suas possibilidades. O organismo máximo do partido é o congresso, que é o representante maior da vontade coletiva. A democracia direta é impossível nos partidos amplos. O congresso deve ser o mais democrático e representativo possível. Nos partidos burocráticos, os congressos expressam a vontade da burocracia dirigente, que controla a indicação dos delegados, dos seus testas de ferro. Os organismos são correias de transmissão dos interesses da camarilha dirigente. Particularmente, o morenismo (LIT-PSTU, UIT-CST, etc.) criou a figura do “dirigente político”, que se coloca acima dos organismos e é uma espécie de tutor de cada militante.
O partido precisa também de uma direção para encaminhar as tarefas práticas e cumprir a política decidida pelo congresso, sem o que seria impossível a sua unidade. Estabelece uma via de duas mãos entre a direção e os organismos de base. As informações são socializadas, com exceção das questões de segurança. Todo militante ou organismo de base pode dirigir-se diretamente à direção, dentro da realidade do partido. Os organismos dirigentes devem contemplar no seu seio todas as diferentes opiniões internas importantes, através dos seus melhores representantes. Os princípios da camaradagem devem presidir as relações pessoais e políticas de todos os militantes, sem prejuízo do debate franco das suas divergências. São incompatíveis as ofensas e disputas pessoais, o carreirismo, as mentiras e as intrigas. A honestidade deve ser uma característica de todo militante. O partido não pode conviver com qualquer forma de discriminação social: machismo, racismo, homofobia, xenofobia. A nova sociedade somente será possível com o surgimento de um novo homem, livre de todas as mesquinharias sociais. O partido é a escola de criação desse novo homem, ainda dentro da atual sociedade. 


POR QUE CONSTRUIR LUTA MARXISTA?
          Luta Marxista é um núcleo político que luta pela transformação da sociedade, pelo fim do capitalismo. Dizem que o socialismo faliu, mas um verdadeiro socialismo nunca existiu. Os países chamados “socialistas” constituíram-se inicialmente apenas no primeiro passo no sentido do socialismo. Essa experiência foi logo burocratizada e destruída. Não foi o socialismo que demonstrou a sua incompetência. Foi o capital internacional que corrompeu e pôs a seu serviço uma casta parasitária no interior desses estados, que se chamou estalinismo. Dessa forma, abortou o processo de construção do socialismo.  O capitalismo é que está falido e está levando a sociedade para a barbárie: miséria, desemprego, guerras de rapina. Faltam recursos para os serviços sociais – saúde, educação, saneamento, transporte – mas sobra dinheiro público para o capital. Este não tem qualquer responsabilidade social, o seu único objetivo é o lucro privado.  O capitalismo não cairá de maduro, precisará ser derrubado através de uma revolução proletária.
Os políticos burgueses iludem os trabalhadores com a possibilidade de mudanças através de eleições. Essa alternativa não existe. As eleições são um jogo de cartas marcadas, dominadas pelo poder do dinheiro, onde em geral os partidos eleitorais servem aos interesses do capital. Passadas as eleições coligam-se para governar conjuntamente contra o povo. Em certas circunstâncias, um partido revolucionário poderia participar de uma eleição burguesa apenas para desmascará-la, jamais para iludir os trabalhadores nesse processo. Os pequenos grupos que participam de eleições são oportunistas.  Uma revolução deve instaurar um governo proletário baseado nos Conselhos Populares, eleitos pelos trabalhadores nos locais de trabalho. O socialismo não é uma utopia, fruto de um desejo humanista. É uma necessidade que se apoia nas condições materiais da sociedade: a socialização da produção em grandes fábricas e uma enorme classe de assalariados, que nada têm a perder no capitalismo “a não ser as suas amarras”.
            Para a revolução socialista, é necessária uma ampla organização dos trabalhadores: sindicatos, associações comunitárias, camponesas e por local de trabalho (comitês de fábrica e de empresa). Mas essas organizações são insuficientes. Ao lado delas, é preciso uma organização especial, um partido revolucionário, que tenha plena consciência das tarefas para a tomada do poder e para a construção da nova sociedade, ou seja, que domine a teoria revolucionária. Aqueles que subestimam a importância do elemento consciente prestam um serviço à burguesia. Uma das principais tarefas do nosso grupo é resgatar o marxismo das mãos dos impostores “marxistas” atuais. É preciso identificar, combater e destruir os partidos traidores, ou seja, todos aqueles que fazem o jogo da burguesia (estalinistas, “trotskistas”, etc.). 
            Vivemos uma profunda crise de direção (melhor explicada no texto anterior “O vendaval oportunista”) consequência das profundas derrotas do proletariado, principalmente, da restauração do capitalismo nos ex-Estados “socialistas” burocratizados, a URSS e a China. A restauração do capitalismo nesses estados trouxe de volta todos os antigos males do capitalismo: miséria, desemprego, jornadas de trabalho exaustivas, baixos salários, prostituição.  Infelizmente, as principais correntes políticas “marxistas” se passaram para o lado da burguesia. No passado, existiram muitos partidos proletários revolucionários, o que demonstra que é possível construí-los novamente. As derrotas do proletariado no último século mostra, pela negativa, que não existe possibilidade de vitória sem um partido revolucionário. A sua construção não é uma tarefa apenas para Luta Marxista, mas para todos os trabalhadores honestos e conscientes. Aqueles que surgirão das lutas atuais e futuras, todos os que acreditam na potencialidade do proletariado. Caso possamos contribuir para a formação de uma pequena parcela dessa vanguarda, teremos cumprido a nossa missão. É preciso reconstruir o edifício da consciência socialista pedra por pedra. A luta dos trabalhadores não pára. A história é longa e nos dará todas as oportunidades. Construir Luta Marxista significa colocar um tijolo no edifício do futuro partido revolucionário, contribuir para o combate a todos os traidores do socialismo e para a construção de um movimento revolucionário do proletariado.

sábado, 23 de agosto de 2014

VOTE NULO PELO SOCIALISMO

Os trabalhadores são chamados, mais uma vez, a votar nos seus inimigos. PT, PP, PSDB, PMDB, PSB, entre outros, representam, em conjunto, os interesses do grande capital. Todos estão comprometidos com a retirada dos nossos direitos. No nosso Estado, tanto o governo Yeda quanto o governo Tarso aplicaram os planos do Banco Mundial para a educação: a Reforma do Ensino Médio, as terceirizações, a precarização do trabalho (vide contratos “emergenciais”) e a meritocracia.
         Os governos Lula/Dilma posam de progressistas, mas são tão entreguistas quanto foi o de FHC, que entregou o patrimônio público a preço de banana ao capital financeiro. A Frente Popular continuou a entregar o que sobrou do país, principalmente, as reservas de petróleo. Marina Silva candidata do PSB/Rede (ex-PT e ex-PV, de Zequinha Sarney) fala em sustentabilidade, mas a sua frente eleitoral tem o apoio do latifúndio, divide o palanque ora com o PT, ora com o PSDB, ou com o PMDB. Marina, quando ministra do governo Lula, endossou a sua política de destruição da natureza. Trata-se de uma serviçal da burguesia travestida de ecologista.
        As candidaturas do PSOL/PSTU apresentam um programa demagógico de reforma do capitalismo: a luta contra a corrupção, a taxação dos lucros, o incentivo aos serviços públicos, etc. Vendem ilusões. O PSOL é um partido dominado por agentes da burguesia (o senador Randolfe Rodrigues é um aliado de José Sarney), e financiado por ela (Gerdau, Zaffari, etc.). O seu programa reformista é apenas “caça votos”. Uma vez no poder, jogaria o seu reformismo na lata do lixo em nome dos interesses dos seus patrocinadores. A sua campanha pela moralização da política é demagógica, porque a corrupção é inerente ao capitalismo. A luta pelo socialismo, que não faz parte da sua política, é a única forma coerente de combate à corrupção. Luciana Genro é uma candidata “laranja” à presidência. A verdadeira candidata do PSOL, não oficialmente, é Marina Silva.
        O PSTU é um coadjuvante de esquerda do PSOL. Finge desaprovar o financiamento de empresas a este, mas continua coligado a ele. O seu programa é tão reformista sem reformas quanto o do PSOL. Capitula ao governismo através de uma política de unidade permanente com a CUT. Avaliza as agressões imperialistas na Líbia, Síria e Ucrânia. A roupagem “marxista” encobre sua política de ala esquerda da burguesia. O PCO é um pequeno grupo eleitoreiro e conciliador. O PCB tenta reciclar o velho estalinismo, mas, apesar da nova roupagem, não abandonou o tradicional vício da conciliação de classes.
        Luta Marxista considera que o capitalismo não pode ser reformado. A nossa luta por melhores condições de vida não é um fim em si mesmo, mas um meio de conscientizar as massas para a luta pelo socialismo. Por mais viciadas que sejam as eleições, queiramos ou não, as mesmas atraem a atenção das massas proletárias e colocam em pauta as questões fundamentais da sociedade. Não podemos ignorá-las. Devemos aproveitá-las para fazer propaganda do nosso programa, denunciar o governo, os partidos burgueses, os reformistas sem reformas e o capitalismo.
        A nossa campanha pelo voto nulo consciente não significa passividade, mas uma forma de conscientização de que não existe alternativa dentro do capitalismo. O maior inimigo dos assalariados são as suas ilusões. Votar nulo significa não alimentar ilusões nos partidos patronais ou conciliadores, ou na reforma do capitalismo. Reconhecemos que não existe alternativa no presente, então plantamos a semente para germinar no futuro. Se a emancipação social não está na ordem do dia, começamos a criar essas condições: uma ampla organização de base dos trabalhadores, sindicados independentes dos patrões e burocratas, comissões de fábrica e empresa, autodefesa, e a criação de um partido revolucionário. Esse caminho pode ser longo, mas os atalhos não o encurta. Não existem soluções mágicas. Cremos na luta do proletariado, na sua organização e consciência.

VOTE NULO CONSCIENTE!
PELA INDEPENDÊNCIA DE CLASSE!
CONTRA OS PARTIDOS BURGUESES E OS BUROCRATAS!
PELA ORGANIZAÇÃO DE BASE E A AUTODEFESA!
PELO SOCIALISMO!


quarta-feira, 30 de julho de 2014

NOVO MASSACRE SIONISTA EM GAZA

                                  Declaração da Luta Marxista – 29.07.14
        A oito de julho, Israel desatou o fogo do inferno sobre a população palestina de Gaza. Um dos exércitos mais poderosos do mundo perpetra mais um massacre contra uma população indefesa, sem exército. O Hamas, que é a direção palestina, não tem aviação e nem tanques, apenas armas leves e alguns foguetes artesanais. O lançamento desses foguetes sobre o território israelense e a morte de três adolescentes judeus na Cisjordânia serviram de pretexto para o massacre. Perante a opinião pública mundial, os genocidas sionistas posam cinicamente de defensistas. A agressão colonialista é vendida como “legítimo direito de defesa do Estado de Israel”. Hitler valeu-se dos mesmos argumentos para invadir a Polônia, a Checoslováquia e a Europa. Somente a cumplicidade da grande imprensa venal torna essa manipulação possível. Os fatos são distorcidos de maneira a que o agressor passe por agredido.
        Garantido o apoio da opinião pública, o sionismo sentiu-se com as mãos livres para praticar o seu esporte macabro, já costumeiro: assassinar e expulsar das suas terras a população palestina. Dos seus escritórios em Tel-Aviv, manejando mouses, os carrascos guiam os seus Drones (aviões teleguiados) para despejar bombas de fósforo branco (semelhantes ao napalm) ou de fragmentação sobre populações civis. Estão a testar a eficiência das suas novas máquinas de matar. Israel sustenta-se na indústria bélica, uma das maiores do mundo, sendo o Brasil um dos seus clientes.
        O Estado judeu não nega as centenas de mortes e milhares de mutilados civis, mas denomina isso “efeito colateral”. O seu objetivo seria defender-se, destruir o “terrorista” Hamas. As mortes civis seriam uma consequência involuntária, porque o Hamas usaria a população como escudo. Cinismo pouco é bobagem. Um jornalista ocidental testemunhou a morte de meninos que jogavam bola na praia. Um avião despejou bombas sobre eles e tornou a atacar aqueles que fugiam. Esse é apenas um exemplo entre milhares do tal “efeito colateral”. Como a população de Gaza, em parte apoia o Hamas e vive no mesmo território, toda ela é considerada escudo e, por isso, pode ser “legitimamente” atacada.
        Israel não combate o suposto “terrorismo” do Hamas, como alega. O seu principal alvo é a população palestina, a quem dedica-se a expulsar das suas terras desde 1948, ou mesmo antes. É uma política colonialista planejada. Todas as negociações acenando para a criação de dois Estados, judeu e palestino, foram farsas, seu verdadeiro objetivo sempre foi legitimar a ocupação. Dos acordos de Oslo, Camp David, etc, resultou o reconhecimento do Estado sionista pela OLP e outros estados árabes. A ocupação foi legitimada. O permanente expansionismo sionista faz com que quase nada mais reste do território palestino. O que resta, Gaza e Cisjordânia, constituem-se em campos de concentração palestina. Falta pouco para a concretização total do sonho sionista de criação da Grande Israel. Alguns sionistas mais afoitos, ou mais sinceros, não escondem que o seu objetivo é a “solução final”: a expulsão total dos palestinos dos territórios que ainda lhes restam.  Liberman, ex-ministro do exterior, recentemente defendeu jogar bombas nucleares sobre Gaza e expulsar os palestinos da Cisjordânia.
        O pretexto imediato para o bombardeio foi o sequestro e morte de três adolescentes judeus na Cisjordânia, em junho, filhos de colonizadores. O governo Netanyahu acusou imediatamente o Hamas, que negou o fato, e desencadeou uma brutal repressão, prendendo e torturando centenas de palestinos. O jornal israelita Haaretz, publicou declaração do chefe do Mossad (serviço secreto) em que este previa antecipadamente o sequestro de jovens na Cisjordânia. A história é estranha. Não se descarta o dedo do Mossad. Quem sabe, o crime tenha sido obra de outros grupos, como o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), que reivindicou o fato (o mesmo que está aterrorizando o Iraque). Segundo Edward Snowden, o EIIL foi criado pelo próprio Mossad e pelos Estados Unidos e a Inglaterra. O uso dessas mortes é mais um pretexto de Israel.
        Somos violentados diariamente pela propaganda pró-sionista que enfatiza o “direito de existência” de Israel, e, portanto, de defender-se. Uma farsa em todos os sentidos. Israel não está na defensiva. Trata-se de uma potência agressiva, colonialista, que já expulsou a maior parte da população palestina. Defender o “direito de existência” de Israel, na prática, significa aplaudir a expulsão dos palestinos, que se repete durante setenta anos. O crime original foi a própria partilha da palestina pela ONU, em 1948. Que direitos teriam os judeus sobre a palestina, após dois mil anos da sua expulsão pelo romanos? Quem sabe, o crime, maior ainda, tenha sido a criação de um Estado fundamentalista judeu, baseado no princípio de que os judeus são “o povo eleito”, superiores. Esse é o mesmo princípio do nazismo, apenas com o sinal inverso. Não existe maior fonte de violência do que as idéias fascistas de superioridade racial.
         Os que defendem o “direito de existência” de Israel apoiam essa barbárie. Nem um Estado racista tem o direito de existência. A ideia iluminista de separação da igreja do Estado está sendo diariamente posta no lixo. Não defender o direito de existência de Israel, não significa jogar os judeus no mar, mas substituir o Estado racista por um estado multiétnico, de igualdade e respeito entre todas as “raças”, culturas e religiões. O sionismo não representa o povo judeu, mas uma minoria de parasitas, banqueiros e magnatas. É igualmente nefasto o fundamentalismo muçulmano, que considera os praticantes de outros credos como infiéis e prega um Estado baseado na Sharia, a lei islâmica. O fundamentalismo judeu alimenta o seu equivalente muçulmano, e os dois o festival de horrores entre os povos da região.

As razões “colaterais” do massacre
        A razão principal do atual massacre é a histórica política planejada de expulsão da população palestina das suas terras, para a concretização do plano sionista da Grande Israel. Isso somente pode ser viável através de guerras permanentes. Por isso, ao sionismo não interessa a paz. Mas existem também outras razões “colaterais”, vinculadas a esta:
1 – a promoção da indústria armamentista, principal setor econômico de Israel. Isso pressupõe o teste dos seus novos armamentos;
2 – adonar-se das recentemente descobertas jazidas de gás e petróleo em Israel, nos territórios ocupados e nas fronteiras com Líbano e Síria;
3 – impedir a exploração do gás palestino pela Rússia (Gazprom), conforme recente acordo entre Mahmud Abbas e Putin;
4 – contornar as divergências internas do regime, unificando-o contra o inimigo comum e mantendo aceso o ódio anti-palestino;
5 – impedir a formação de um Estado palestino, mesmo que fantoche, porque isso implicaria em uma relativa paz e o abandono da política da Grande Israel;
6 – sabotar, pelas mesmas razões, o processo de paz de Obama, que implicaria no fim de novos assentamentos;
7 – sabotar o acordo entre o Hamas e a Autoridade Nacional Palestina, que traz consigo a ilusão de um Estado Palestino, mesmo que tutelado por Israel.

A nossa política
         Enquanto as bombas caem sobre Gaza, Luta Marxista declara e exige:
- o fim imediato dos bombardeios;
- fora as tropas sionistas de Gaza e da Cisjordânia;
- ampla campanha unitária de agitação e propaganda anti-sionista e anti-imperialista. Israel é um braço do imperialismo e não sobrevive sem o seu patrocínio;
- o sionismo não se apóia apenas na força militar, mas também na opinião pública. Por isso, é preciso desmascarar impiedosamente todos os seus cúmplices: a grande imprensa venal, os intelectuais mercenários e os governos subservientes, não apenas aqueles que lhe dão sustentação direta (Estados Unidos e União Européia), mas também os seus cúmplices menores, aqueles que fazem declarações ambíguas e cínicas: contra os “excessos” de Israel, mas a favor do seu direito de existência e de defesa, o que equivale ao direito de colonização. Esse é o caso do governo Dilma. Um lugar privilegiado nessa alcateia de lobos ocupam os regimes árabes. Destaca-se o papel do Egito, que, ao fechar as suas fronteiras com Gaza, torna possível o seu completo cerco por Israel.
        Não se pode exigir de governos subservientes que rompam com Israel, como faz a esquerda conciliadora e traficante de ilusões. Aos cúmplices do imperialismo, não se exige, se desmascara. A melhor defesa de Gaza, é minar o apoio da opinião pública ao sionismo;
- o fim da atual ofensiva, não significa garantia aos palestinos. O terror de Israel é permanente. Não há solução para eles enquanto subsistir o Estado sionista. Lutamos pela destruição do Estado sionista e pela criação de um Estado laico, não racista e socialista. A velha bandeira da OLP, por um Estado laico, democrático e não racista, apesar dos seus aspectos progressistas, não pode ser a nossa divisa, porque não propõe o socialismo, mas um Estado democrático, ou seja, burguês. Não existe solução dentro do capitalismo. A esquerda (morenistas, entre outros) ao defender essa consigna antiga da OLP, admite que não pretende sair dos marcos capitalistas;
- defender o socialismo como solução para a palestina também é insuficiente, porque o capitalismo é internacional e dominado pelo imperialismo. É impossível um socialismo restrito ao oriente médio, menos ainda à palestina. A questão palestina, como qualquer outra, somente se resolve na arena mundial, na luta contra o imperialismo e pelo poder universal do proletariado. É por isso que a nossa propaganda deve ter como eixo central o internacionalismo, a denúncia do capitalismo. É preciso criar um amplo movimento de massa conscientemente anticapitalista, tudo aquilo que a esquerda conciliadora não faz. Para ela a denúncia do capitalismo e a propaganda do socialismo é coisa para os dias de festa.

 - FORA O SIONISMO NAZI-FASCISTA DE GAZA;
 - ABAIXO O TACÃO IMPERIALISTA  IMPERIALISTA SOBRE OS POVOS;
 - VIVA A LUTA E A UNIDADE DOS TRABALHADORES, QUE NADA TÊM A PERDER, A NÃO SER AS SUAS AMARRAS;
 - VIVA O SOCIALISMO.
        

domingo, 30 de março de 2014

UCRÂNIA: PALCO DA DISPUTA IMPERIALISTA

                             
        A Ucrânia transformou-se no palco da disputa entre a Rússia e os Estados Unidos. A recusa de firmar um acordo com a União Européia em favor de outro com a Rússia serviu de estopim da crise. O fim da União Soviética desencadeou uma ofensiva dos Estados Unidos. O ocidente “anexou” uma dezena de países da antiga URSS. Os EUA tentam expandir a sua hegemonia a todo o mundo e vêem na Rússia e na China os maiores obstáculos. A Rússia teve de reagir e já em 2008 interveio militarmente na Geórgia para frear o expansionismo ianque. EUA e União Européia criaram centenas de ONGs na Ucrânia, financiaram os partidos de oposição, os fascistas e a imprensa, num total de cinco bilhões de dólares, conforme declaração da secretária Victoria Nulland.
Paul Craig, ex-secretário do tesouro americano, afirma: “A Ucrânia ou a parte ocidental do país está cheia de ONGs mantidas por Washington cujo objetivo é entregar a Ucrânia às garras da União Européia ...”. E Moniz Bandeira escreve: “Com efeito, por trás das ininterruptas demonstrações, das quais dois senadores americanos - John McCain (Partido Republicano) e Christopher Murphy (Partido Democrata)  abertamente participaram – estão certas ONGs, tais como Open Society Foundations (OSF), Vidrodzhenya (Reviver), Freedon House, Poland-America-Ukraine Cooperation Initiative e outras, financiadas pelos Estados Unidos através da USAID, National Endowment for Democracy e CIA, bem como, fundações alemãs. Foram elas que promoveram a denominada Revolução Laranja, que derrubou o governo de Leonid Kuchma (l994-2005)”. A jornalista, Katya Gorchinskaia, do Kiev Post, afirma: “alguns manifestantes obtém ganhos de 500 dólares por dia ...” . O ex-analista da NSA, Wayne Madsen, declara: “Desde que os esforços para manipular a democracia do financista George Soros se uniram às táticas de revoluções de rua artificiais de Gene Sharp para formar a estratégia central do objetivo neoconservador dos Estados Unidos e impor seu “Novo Século Americano” ao mundo inteiro, a Ucrânia serviu de presa da política exterior intervencionista dos Estados Unidos ...”. Prédios públicos, antes do golpe, foram ocupados por essas ONGs. O Jornal online PÚBLICO, publicou o seguinte: “Grupos de Soros continuam pressionando o governo, apesar das concessões. O grupo Spilna Spraya, que é apoiado financeiramente pelo Open Society Institute, de George Soros, concordou em terminar com a tomada do Ministério de Políticas de Agricultura e Alimentação no centro de Kiev”.
        A direita fascista – Svoboda e Setor Direito - dirigiu o movimento Euromaidán. Antes do golpe, já controlavam parte da Ucrânia, perseguindo os seus adversários. Yanukovich viu-se encurralado. O exército permaneceu neutro e a polícia retirou-lhe o apoio. Uma parte dos magnatas, que se apropriaram do patrimônio público, apoiavam o governo e controlavam a polícia (outra parte apoiava a oposição).  Temendo as represálias da União Européia – congelamento das suas contas – abandonaram-no, seguidos pela polícia. Venceu a direita liderada por Júlia Timoshenko (Partido Pátria), ex-primeira ministra, pelo ex-pugilista Vitali Klitschko (Partido UDAR), pelos partidos fascistas Svoboda e Setor direito, apoiados pela outra parte dos magnatas. A corja fascista tomou o parlamento, destituiu Yanukovich, nomeou um novo governo, com ampla participação fascista, e implantou o terror.

Golpe de Estado ou revolução?
        Revolução é a tomada do poder por uma classe em substituição a outra, através de uma insurreição. Na Ucrânia, houve uma luta entre dois bandos, cada qual a serviço de um determinado “senhor” imperialista. O movimento fascista não foi a expressão de uma insurreição de uma classe revolucionária ou uma revolução democrática, como afirma a esquerda colaboracionista (LIT/PSTU, UIT/CST). Esta mascara realidade, minimizando o fascismo e exagerando a participação independente do povo. A sua “revolução democrática” seria a queda de uma ditadura e a conquista de liberdades democráticas. Os fatos não se encaixam nem mesmo nesse conceito liberal. O governo não era uma ditadura e muito menos foram conquistadas liberdades. Sobreveio o terror fascista. Soa patética a declaração da LIT/PSTU: “A imponente força da mobilização revolucionária do povo ucraniano derrubou o governo assassino, entreguista e oligárquico de Victor Yanukovich, conquistando uma vitória democrática que ilumina o caminho dos outros povos e aterroriza as classes dominantes da Ucrânia, Rússia, da Europa imperialista e do mundo inteiro”. Não menos patética é a declaração da UIT/CST: “Ucrânia: um triunfo revolucionário das massas”: “Na Ucrânia triunfa uma revolução democrática que conseguiu a queda do reacionário e pró-russo Yanukovich”.
        O PSTU admite que “não nos surpreende que as manifestações que tomam Maidán sejam dirigidas por execráveis grupos neonazistas ou pela bastarda direita entreguista pró-ocidente”. A fantasiosa “revolução democrática” supõe então que o movimento fascista pudesse ser disputado e a parte da população arrebanhada desse o seu caráter, segundo o modelo das “revoluções inconscientes” ou objetivas, como sempre, posteriormente “desviadas” pela direita. Em que momento “as massas” teriam imposto a sua vontade? É inútil perguntar. Bastaria que se “sintam vitoriosas”. Alega também que se criou o duplo poder: “De um lado, o auto-proclamado “novo governo”, assentado na oposição pró-imperialista e de ultra-direita e, de outro, o poder latente da Praça Maidán, apesar de que em suas milícias de auto-defesa participem também setores de ultra-direita e uma parte delas tenha sido cooptada como agente do novo poder”. O alegado duplo poder (o governo de ultra-direita supostamente oposto às milícias de auto-defesa das quais participa também a ultra-direita) se resume à tautologia: ultra-direita versus ultra-direita.
         O golpe triunfou. O novo governo fascista (com sete ministros fascistas) tomou posse e foi saudado pelos manifestantes da Praça Maidan. Julia Timoshenko, libertada da prisão, correu direto para a praça, onde recebeu “um banho de massas”, segundo a imprensa. Isso desmente a alegada mobilização independente das massas.  

A Rússia seria imperialista ou semi-colônia?
        Para uma parte da esquerda, a Rússia não se enquadraria no conceito de imperialismo: não seria exportadora de capitais, nem um centro financeiro importante, nem detém grande concentração de capital monopolista. Isso é parcialmente verdadeiro, portanto, totalmente falso. Não se pode negar a distância entre a Rússia e o ocidente. A Rússia não atende todos os requisitos do conceito de imperialismo, mas não existe um padrão de imperialismo, nem um limite que separe países imperialistas dos não imperialistas. Existem países intermediários, que podem ser considerados como tais.
         As guerras mundiais estabeleceram o equilíbrio entre as potências e a divisão do mundo entre elas. O equilíbrio surgido da II Guerra Mundial não existe mais. A União Soviética se desfez. O imperialismo ocidental penetrou na sua área de influência. As crises mundiais o enfraqueceram e o tornaram mais parasitário. Os Estados Unidos perderam terreno, sobressaindo o seu caráter rentista. O seu déficit é enorme, sua dívida impagável, somente rolada com a poupança externa. O seu poder se mantém com base no monopólio da emissão da moeda mundial, o dólar, e na sua superioridade militar. Tenta compensar o seu declínio com a sua doutrina de “domínio total”.
        A Rússia e a China também contam com os seus trunfos. Crescem em nível muito superior ao ocidente. A China não tem colônias, mas exporta capitais para os outros continentes, conta com a maior população mundial de um país e uma área enorme. A Rússia é o maior país do mundo, equivalente a duas vezes e meia o Brasil. Tem uma população numerosa e enormes recursos naturais, principalmente, gás e petróleo, cuja posse é fundamental. Possui a Gazprom – gás e petróleo – uma das dez maiores empresas do mundo. A Europa depende da Rússia. Também é a herdeira do poderio militar soviético, que é o único que pode se opor ao dos Estados Unidos, e é grande produtora e exportadora de armamentos.
        Hoje, os principais conflitos têm como pano de fundo a ofensiva dos EUA para enfraquecer a Rússia e a China: Bálcãs, Afeganistão, Iraque, Geórgia, Líbia, Síria, Irã, e a Ucrânia. Desde a queda da URSS, a Rússia vem cedendo terreno. A atual ofensiva sobre a Ucrânia marca um limite. A Rússia não pode ceder a Ucrânia, embora não lhe convenha a guerra. Mas a iniciativa não lhe pertence. Precisa consolidar uma área de influência imperialista no seu quintal. Daí a tentativa de criação da União Aduaneira Euro-asiática com a Bielorússia, Casaquistão, Quirquistão, Armênia e Ucrânia. Também negocia a concessão de bases militares numa dezena de outros países. Age na Ucrânia como pais imperialista, embora, camuflada por uma postura defensiva.

O que defendemos na Ucrânia?
        O que está em primeiro plano para os trabalhadores conscientes não é a luta pela soberania nacional da Ucrânia, nem a luta apenas contra o fascismo, nem a luta contra a Rússia: é a luta de classes do proletariado internacional contra o conjunto da burguesia, seja democrática ou fascista, européia ou russa. Não apoiamos nenhum dos imperialismos. Não existe mal menor. O domínio do mundo por qualquer dos imperialismos significa a mesma barbárie. O bandido mais fraco, a Rússia, não luta contra o fascismo (existem grupos fascistas ocidentais que apóiam a Rússia e grupos monarquistas russos – anti-semitas, sucessores dos Cem Negros - entre as tropas russas na Criméia), nem pela soberania da Ucrânia. Luta pela escravidão da Ucrânia e dos trabalhadores ucranianos. O imperialismo “democrático” apóia-se no fascismo ucraniano. Também favoreceu a ascensão de Hitler. Defende os seus interesses seja através do fascismo ou da democracia. O próprio sionismo ucraniano defendeu o golpe, incluídos os fascistas, apesar de que estes vociferem: “morte aos judeus russos!”. Os seus interesses de classe estão acima da defesa do povo judeu. Também para o proletariado a luta de classes contra toda a burguesia está acima de qualquer outro interesse.
        A democracia burguesa é preferível ao fascismo, mas no conflito inter-imperialista, essa diferença se reduz a quase zero. Na Ucrânia, a “democracia” ocidental está de braços dados com o fascismo, da mesma forma que a “democracia” russa. Não lutamos contra o fascismo em nome da democracia, mas do socialismo. Lutamos contra o fascismo da mesma forma que lutamos contra a ditadura “democrática” capitalista. Na luta contra o capitalismo, combatemos também o fascismo e qualquer outro representante “democrático” da burguesia.
        Na prática, um desses inimigos pode se tornar circunstancialmente mais perigoso que o outro. Então, podemos fazer acordo episódico com o último, o que não o torna o mal menor. O fascismo impôs o terror em Kiev e em parte da Ucrânia. Aí é o inimigo principal dos trabalhadores dessa região. Devemos combater o golpe fascista, mas não em nome da volta de Yanukovich. Na Criméia e no Leste ucraniano, a Rússia é o inimigo principal desses povos, que devem denunciar a máfia russa, a repressão, os planos de arrocho. O inimigo principal está sempre em casa. Não apoiamos a anexação da Criméia à Rússia. Lutamos pela Federação dos Estados Unidos Socialistas da Europa. Defendemos a solidariedade do proletariado internacional: ucraniano, russo, polonês, alemão, etc.
        A proposta genérica de Frente Única com a Rússia é um crime, porque a embeleza aos olhos do proletariado, cuja conscientização é o nosso objetivo permanente. Não se admite política que obscureça essa consciência. Uma política geral de Frente Única não se confunde com acordos práticos, que são admissíveis em circunstâncias bem determinadas. Os bolcheviques combateram o governo de Kerensky que estava aliado ao general Kornilov. Quando esse general atacou o governo Kerensky, defenderam esse governo contra Kornilov. Em outubro de 1917, promoveram uma insurreição novamente contra ambos, o governo Kerensky e os amigos de Kornilov. As mudanças táticas atendiam à realidade prática. Jamais propuseram, em princípio, a Frente Única com o governo contra a direita militar. Seria um crime atar-se as mãos antecipadamente, como o é hoje a proposta por parte da esquerda de Frente Única com a Rússia. Não menos criminoso é o apoio ao golpe. O “combate” dessa outra esquerda ao fascismo é uma fraude porque apoiaram todo o processo que os levou ao poder, cujo resultado era previsível. A vitória do golpe não poderia ter tido outro desfecho. Tornaram-se colaboracionistas do imperialismo ocidental, da mesma forma que os outros colaboram com o regime russo.
        Alguém diria que o combate ao imperialismo de conjunto não é realista porque não oferece uma alternativa imediata. Na prática, não existiria uma terceira via. Seria omitir-se no combate ao imperialismo hegemônico. De nossa parte, sabemos que a alternativa socialista depende de um longo processo. Mas o fato de não termos alternativa imediata não significa que devamos iludir o proletariado com um “mal menor” imperialista, no caso, o russo. Não propomos milagre, nem ilusões. Mostramos o longo caminho a ser percorrido, a dura realidade. Propomos a luta de classes, não a revolução imediata. Não é utopia, nem omissão. É preferível uma longa luta à uma ilusão passageira.

        A nossa política para a Ucrânia não é a mesma para Síria. Esta, deve ser defendida incondicionalmente. Na guerra civil síria estão também presentes os dois imperialismos, EUA e Rússia. Acontece que a presença russa na Síria é secundária, não se dá na condição de imperialismo dominante, como na Ucrânia. O caráter da guerra civil síria não é determinado pela influência russa. A Ucrânia tem uma relação de dependência em relação à Rússia que não tem a Síria. Faz parte do seu quintal. São realidades muito diferentes. Na Síria, o determinante é a agressão imperialista através dos chamados rebeldes. É obrigatória a defesa da Síria, como nação oprimida. A vitória de uma semi-colônia é sempre o mal menor. Não existe mal menor no conflito entre dois imperialismos. Nem todas as guerras são iguais. Existem as guerras de defesa nacional e as guerras inter-imperialistas. A Síria pertence ao primeiro caso e a Ucrânia ao segundo. 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

LIÇÕES DA MORTE DE SANTIAGO

É preciso aprender com a trágica morte do cinegrafista Santiago Andrade. Não foi uma fatalidade. Essa morte lamentável ofereceu o pretexto para a grande imprensa desencadear uma cínica campanha tentando criminalizar a esquerda (Marcelo Freixo do PSOL e PSTU). Valeu-se das denúncias do suspeitíssimo advogado Jonas Tadeu e das declarações da militante Sininho. A criminalização da esquerda tem outro endereço principal, atingir o movimento da juventude e criar o clima favorável à aprovação de uma nova legislação autoritária, principalmente, o novo AI-5 que tramita no congresso, conhecido como Lei Antiterrorista, que permite  enquadrar como terrorista qualquer manifestante. Esse projeto de lei tem o apoio também do governo Dilma, que tem interesse numa copa do mundo tranquilo e nos negócios que ela representa. Essa lei Antiterrorista significa uma ameaça autoritária a qualquer movimento. As manifestações de junho/2013 surpreenderam e alarmaram a burguesia, que está agora temerosa da possibilidade do efeito contágio sobre as vilas e os trabalhadores, por isso, se precavem com essa legislação de fazer inveja à ditadura militar.
        A esse propósito serviu a morte de Santiago. A direita (Alckmin, Cabral, serviços de segurança, polícias militares e fascistas) tem enviado seus agentes provocadores às manifestações com a finalidade de criar tumulto para esvaziá-las e incompatibilizá-las com a opinião pública, no que tem sido bem sucedida. Não por acaso, são apenas as manifestações pacíficas que têm sido reprimidas brutalmente. Essa direita, paralelamente, tenta ampliar o seu poder dentro da institucionalidade e desgastar eleitoralmente a presidenta. A participação de agentes provocadores tem ficado evidente desde o início das manifestações. Muitos fatos o comprovam. Agora, a lamentável morte de Santiago, escancarou ainda mais essa realidade. O DNA da direita (no caso, Jonas Tadeu) não pode mais ser ocultado, mesmo que a Globo tente envolver a esquerda.
        PSTU e PSOL sempre foram formalmente contra as depredações e a violência gratuita. No entanto, estão pagando caro pela sua omissão política com relação a elas, porque não assumem a sua responsabilidade como parte da direção política do movimento. Não os exime a afirmação de que não se pode controlar atos de terceiros. Pelo menos, se deve desautorizar o vanguardismo, que está objetivamente de braços dados com a direita, de tal forma que não se consegue distingui-los. Não se trata de denunciar companheiros, mas de combater politicamente métodos inconsequentes e prejudiciais. Não se deve brincar com fogo. A esquerda em geral subestima o estrago do vanguardismo e tenta capitalizá-lo de forma oportunista.
        O nosso objetivo estratégico é a expropriação da burguesia através da insurreição de todos os trabalhadores. O vanguardismo e o foquismo são estranhos e perniciosos ao movimento do proletariado. A violência revolucionária só se legitima se favorece a luta e conta com o apoio popular. O atual “esquerdismo infantil” ou é obra da direita disfarçada ou leva água ao seu moinho. Oxalá a infeliz morte de Santiago sirva para abrir os olhos de quem não quer ver.




domingo, 23 de fevereiro de 2014

BREVE BALANÇO DA GREVE DOS RODOVIÁRIOS

       
            O julgamento do TRT concedendo 7,5% aos rodoviários, mesmo percentual já oferecido antes pelos empresários, significou a derrota da greve e demonstrou mais uma vez o caráter patronal desse tribunal. Por falta de uma direção independente, os rodoviários não tiveram forças para vencer a aliança entre os patrões, o sindicato (Força Sindical), a oposição (CUT) e os governos estadual e municipal. Bem que a categoria tentou apropriar-se do movimento, rejeitando nos primeiros dias o acordo firmado pelo Comando de Greve (dirigido pela oposição cutista) que havia aceitado os mesmos 7,5%. A categoria pagou um alto preço pelas suas ilusões na oposição da CUT. Esta recuou do acordo na assembléia, apostando no desgaste natural da greve. A oposição alardeia que foi uma vitória a decisão do tribunal, os míseros 7,5%.
        Nessa greve, os rodoviários foram usados, como sempre, pelos patrões (que forneceram, inclusive, transporte para as assembléias), visando o aumento das passagens, e pelo sindicato (Força Sindical e CUT), que participou do jogo dispondo-se a voltar ao trabalho de mãos vazias e não tomando as medidas necessárias para a sua vitória, como a decretação do passe livre pelos grevistas, apresentando demagogicamente essa reivindicação a Fortunati.  A greve foi também apoiada veladamente pelo governo Tarso, que orientou a Brigada Militar a não reprimir os piquetes com o objetivo de desgastar o prefeito.
        A greve não convinha ao prefeito Fortunati porque o desgastava politicamente. Por isso, tentou reprimi-la, mas não o conseguiu pelo “corpo mole” do governo estadual. O prefeito também é aliado dos patrões. Não tomou as medidas de enfrentamento necessárias: o passe livre ou a intervenção nas empresas, aceitando passivamente o desgaste. Agora, com a derrota da greve, prepara-se para premiar o patronato com generoso aumento da tarifa. Pressionado pelo tribunal, anuncia uma licitação previsivelmente viciada.
        A oposição da CUT, para encobrir a sua omissão, intimidou a categoria com o fantasma da demissão por justa causa, caso pusesse em prática o passe livre. Sabemos dos riscos dessa atitude, mas uma greve por tempo indeterminado num serviço essencial é, por natureza, arriscada. Com a rejeição do acordo na primeira semana, foi decretada a ilegalidade da greve e, portanto, desde então, os rodoviários já estavam expostos às represálias patronais. Os patrões mudaram de atitude e passaram a pressionar os rodoviários a furar a greve. Esta não poderia ser vitoriosa sem que os rodoviários também não dessem um passo em frente através do passe livre unilateral. A vitória não seria possível sem um enfrentamento radical. Para tanto, seria necessário a solidariedade dos demais trabalhadores e da opinião pública. Esta última seria ganha pelo passe livre e o apoio das outras categorias dependeria de uma central combativa, coisa que não se pode esperar da CUT ou da Força Sindical. Apenas a vitória da greve poderia evitar as represálias, inclusive, as demissões. Ao levantar o fantasma das demissões por justa causa, a oposição cutista reconheceu que não estava disposta a apostar na vitória.
        Essa greve deixa duas lições principais. A primeira: diante da unidade entre todos os patrões, governos municipal e estadual, pelegos sindicais, justiça do trabalho, é indispensável contrapor a unidade de todos os trabalhadores e uma radicalização dos métodos de luta: ocupação dos locais de trabalho, piquetes, fundos de greve. Nunca foi tão atual a poesia de Jorge Fischer: “greve é quase a revolução” (1). As greves tradicionais e bem comportadas estão fadadas ao fracasso. A segunda: a necessidade da criação de oposições revolucionárias e de uma ampla organização de base. É preciso derrotar os atuais pelegos sindicais (CUT, Força Sindical, CTB, etc.)

O Bloco de Oposição de Esquerda
        Como apoio externo à greve, foi criado o Bloco de Oposição de Esquerda (Conlutas, Intersindical, CUT Pode Mais, PSOL e PSTU). Esse bloco apoiou a oposição cutista dos rodoviários e com isso foi conivente com a sua política e com a derrota da greve. Hoje, o Bloco de Luta pelo Transporte Público, composto pelas mesmas forças mais os anarquistas, apresenta a proposta vazia de um “transporte 100% público” e combate a licitação a ser realizada pela prefeitura: “por isso, queremos barrar essa licitação e construir um projeto consultando a população”.
        Certamente, a licitação de Fortunati será viciada e nada resolve. Não pode ser a alternativa dos trabalhadores. A alternativa é a estatização do transporte (não a abstração “por um transporte 100% público”, que não se sabe o que é). A defesa da estatização do transporte é a única forma coerente de sermos contra a licitação. Propor “barrar a licitação” em nome de uma vaga “consulta à população”, significa colocar-se inteiramente a serviço dos atuais empresários do transporte. Uma vergonha. A categoria dos rodoviários deve rechaçar também esses supostos apoiadores de esquerda.

(1)                “Greve é pedra. Greve é fogo. Greve é terra. É uma esperança que medra e cresce em gritos de guerra. É o sangue estuando na fronte. É o homem a estender a mão até o cordão do horizonte. Greve é quase a revolução”.